Minha filosofia, lá menor

Aluisio Machado

Aluisio Machado: samba discretamente falava sobre a ditadura militar

Divagações sobre um samba carioca da gema

Por Carlos Machado*

O Carnaval se aproxima. Confesso que, com exceções muito especiais, não gosto dos sambas momescos — os chamados sambas-enredo. Creio que, na maioria dos casos, são músicas que não fluem naturalmente nem conquistam a aura de perenidade das grandes canções.

Em geral, aprecio as composições feitas pelos mestres das escolas de samba, porém não as destinadas ao Carnaval, a exemplo de pepitas como As rosas não falam, de Cartola, Folhas secas, de Nelson Cavaquinho e Guilherme de Brito, ou 14 anos, de Paulinho da Viola.

Dia desses, reencontrei um samba dessa categoria, do compositor fluminense Aluísio Machado (Campos-RJ, 1939), veterano da escola de samba Império Serrano. Dito assim, você talvez não o reconheça. Afinal, Aluísio não é nenhum pop star. Mas é claro que você o conhece. Se não de vista e de chapéu, como diria Dom Casmurro, pelo menos de ouvido. Para começo de conversa, ele é autor de um famosíssimo samba-enredo, Bum bum paticumbum prugurundum (1982), em parceria com outro bamba chamado Beto Sem Braço (Laudenir Casemiro, 1940-1993).

Sambista de primeira água, Aluísio começou aos 14 anos a desfilar na Império Serrano, agremiação na qual integra a ala de compositores. Profissionalmente, foi estofador e depois funcionário (arquivista, contabilista) do Tribunal Marítimo, órgão vinculado à Marinha.

Feitas as apresentações, quero falar mesmo é do samba Minha Filosofia, da autoria de Aluísio Machado. Na letra, o autor brinca com redundâncias e, irônico, pede desculpas por isso. Um clássico do samba carioca.

Segundo o próprio Aluísio (veja o vídeo abaixo), esse samba, lançado em 1981 por Alcione, teria sido composto como um sutil protesto contra a ditadura militar. A melodia, de fato, contém um tom de desencanto e, ao mesmo tempo, de esperança. Afinal, o sambista-filósofo sabe muito bem: não há mal que sempre dure. A sabedoria de Aluísio valia na época e vale também nos obscuros tempos atuais. Vai passar.

E vamos ao samba. Como diz o compositor: “Minha filosofia, lá menor”.

* * *

MINHA FILOSOFIA

(Aluísio Machado)

Vai passar
Esse meu mal-estar
Esse nó na garganta
Deixe estar…
O próprio tempo dirá
Água demais mata a planta

Tudo que é muito é demais
Peço: me perdoe a redundância
Entrelinhas, só quero lembrar
A terra fértil um dia se cansa
É uma questão de esperar

Relógio que atrasa não adianta
E o remédio que cura
Também pode matar
Como água demais mata a planta

* * *

Minha Filosofia, com o autor, Aluísio Machado

Minha Filosofia, com o grupo carioca Casuarina

 

*O poeta, cronista e jornalista Carlos Machado é também editor do Poesia.net, que você confere em www.algumapoesia.com.br