Poder em dose quíntupla de Claudio Willer

Claudio Willer: novos livros em 2018

Claudio Willer: novos livros em 2018

 

Aos 77 anos, bem agora em janeiro,
Willer publica 5 livros por conta própria
– contando histórias sobre a poesia de
amigos de primeira grandeza

Por Mauricio Bonas*

Passeando entre as neblinas que Milan Kundera ensina dividirem sonho de vigília, naquela hora da manhã em que nada se acordou em mim mas por algum motivo tenho um jornal na mão e café perto, dei um pulo na cadeira espiando o Estadão do sábado 13 de janeiro.

Matéria no Caderno2 diz que o crítico literário e poeta de surpresas raras Claudio Willer fez publicar, em volumes impressos como há de ser em papel, 5 livros com antologias poéticas e ensaios (assinados por Willer, devem ser brilhantes) analisando a obra de 5 poetas brasileiros de cepas nascidas além da segunda metade do século 20, turma aí com seus 60 a 70 anos. A saber, Miriam de Carvalho, Floriano Martins, Celso de Alencar, Péricles Prade e Eunice Arruda, única entre os quais morta, deixou a vida ano passado.

Projeto lindo cujo resultado não só merece como deve ser adquirido por quem gosta ou apregoa gostar de poesia. Já providenciei pedir os meus (os seus o aguardam em https://claudiowiller.wordpress.com).

Forte demais, impositivo em excesso, esse deve ser? Não acho. De volta ao artigo no Caderno2, assinado pelo professor da Ufscar Wilson Alves-Bezerra. Diz ele que Claudio Willer usa de método ‘herético’ no ‘mundo das comunicações imediatas e do capitalismo’ ao não incluir nos livros meio de contato com o organizador, o próprio Claudio, ou sequer ISBN. Wilson Alves-Bezerra dá a impressão – desculpe se o leio errado – de considerar heroica essa opção, e a compara à do editor Massao Ohno, que teve uma pequena editora justificadamente afamada, pela qualidade de títulos por ela publicados, na São Paulo dos anos 80 a 90.

Não ter telefone ou email nos volumes acho estranho, e mais ainda a falta do ISBN, mas foi a opção do poeta. Por conta dela os livros não podem estar em livrarias nem físicas nem virtuais – sem a tal ficha de catalogação não dá. Willer os vende por meio de seu blog e, aos 77 anos de idade, fazê-lo também me surge heroico, considerando que não consta Willer ter juntado fortuna criando poesia, traduzindo ou escrevendo ensaios literários brilhantes, a exemplo de Os Rebeldes – Geração Beat e Anarquismo Místico, pela L&PM, em que analisa a poesia norte-americana beatnik de Jack Kerouac e outros.

O louvável gesto que enxergo em Claudio me levou a usar o impertinente deve ser comprada para a coleção. Opinião pessoal, deixe pra lá se parece bobagem.

***

Me chama atenção a maneira como o professor Wilson comparou a iniciativa de Willer à de Ohno.

– Seria válida?, me pergunto.

Corria à boca solta nos anos 1980, entre pretendentes a escreventes, que Massao era patrono de jovens escritores, da turma de 20 anos ou menos ainda, isso nunca foi mentira, ele e sua editora tinham portas abertas e contato fácil, direto. Era missão possível para um autor novo com alguma disposição conhecer o famoso editor e ter chance de conversar com ele.

Willer estreou em livro fazendo parte de uma coletânea organizada justamente por Ohno, em que figuraram ainda outros poetas agora perfilados por ele na coleção de 5 volumes. E quem não tinha o talento de Claudio Willer, como ganhava publicação na Massao Ohno?

Havia outro caminho. Massao também precisava pagar contas no fim do mês. Se um desses garotos de então entregasse a ele originais sem condições de publicação – contos fracos, poemas incipientes ou romance manco – e insistisse, existia a possibilidade de ter seu nome na lombada de um livro, mesmo com o conteúdo duvidoso.

Bastava que tivesse dinheiro para investir em uma pequena tiragem. Pagamento em parcelas, a editora entregava bonitinho ao autor seus 200 ou 500 exemplares, não lembro exato os números. Era ‘edição do autor’ só que com o nome de uma editora digna estampado na capa.

Não sei se há algo errado nisso. É comum autor pagar a edição primeira ou mesmo se autopublicar, se tem fé em seu produto e as editoras se arrediam. Mas lá no início dos 1990 me deixou estarrecido ver essa prática, eu que inocente acreditava em Robin Hood, na revolução mundial e em editores de livros que só publicam certo autor quando dele sabem do valor da obra, e que depois de ordenar imprimir seus livros e os distribuir, de vez em quando enviam cheque polpudo de direitos autorais para o escritor, o deixam livre para seguir escrevendo e vivendo de sua escrita com dignidade.

Ver o que devia ser qualidade substituído por dinheiro foi o corte em minha ideia romântica tola. Deve ter sido por isso que tanto me decepcionei ao saber dos ‘trâmites capitalistas’ de Ohno, mas já era tempo de eu crescer.

Fico me perguntando o que teria acontecido se eu então não quisesse, nesse sentido tão estreito, ter crescido. Claudio Willer parece responder que teria sido viável também, ao juntar força para escrever, editar e mandar imprimir no risco seus 5 novos livros, aos 70 e tantos anos, quando a maior parte das pessoas ‘crescidas’ já entregou as chuteiras e está na frente da tevê esperando a próxima atração ou do celular aporrinhando amigos em grupos de whatsup.

Em tempo: não estou dizendo nem insinuando que Willer ‘não cresceu’. Ao contrário.

*Mauricio Bonas é jornalista e psicanalista.

 

Visite https://claudiowiller.wordpress.com