Tributo aos 90 anos de Jobim em CD de Fernanda Cunha - Kultme

Tributo aos 90 anos de Jobim em CD de Fernanda Cunha

fernanda cunha

Dez anos depois do álbum “Zíngaro”, em que visitou em parceria com o violonista Zé Carlos o cancioneiro de Tom Jobim, a cantora Fernanda Cunha volta ao repertório do maestro em um belo disco gravado “ao vivo em estúdio”. As apresentações de lançamento do CD “Jobim 90”, cujo título remete à idade que o compositor teria caso ainda vivo, já levaram Fernanda a cantar na Sala Baden Powell, no Rio, e dia 14 de setembro a farão subir no palco do Sesc Pompéia, na capital paulista. A turnê do “Jobim 90” começou porém antes e em local mais distante – em maio, por exemplo, Fernanda cantou em Edmonton, Saskatoon, Kitchener e Toronto, no Canadá, para onde volta no final de setembro para shows na região da British Columbia.

Kultme – Sua turnê de lançamento tem mais datas preenchidas no Exterior do que no Brasil. Por que?

Fernanda Cunha – Me apresento muito em festivais de jazz e já representei o Brasil em dezenas deles no mundo – desde Vancouver até a Malásia. Quando há um festival de jazz em São Paulo ou no Rio, quando abrem novas casas de shows no Brasil, fico me fazendo a mesma pergunta: imagino que faria sentido que eu estivesse na programação. Por que não estou? Garanto que não é por falta de vontade minha. Olha, te digo com certeza: não é fácil sobreviver de música no Brasil.

Você já gravou Tom Jobim antes, há dez anos, e, ao escutá-la em “Jobim 90” a comparação é inevitável. Como você mesma compara os dois trabalhos?

Acho que o disco “Zíngaro”, gravado em 2007, tinha grandes diferenças em relação ao “Jobim 90”. Eram parcerias de Tom e Chico com letras muito densas. Além disso, o disco foi em formato voz e violão, que também deixava os arranjos com menos voo.  A maior diferença foi em relação à instrumentação. O disco e o show exigiam muito de mim e do Zé Carlos – não tínhamos com quem trocar, era um bate bola entre nós dois o tempo todo, e isso falando em temas como separação, exílio e coisas assim. Agora, no novo disco, há diferença notável já considerando que as letras do Tom são muito leves, até quando ele fala em tristeza. “Triste” é prova disso. Não há tristeza ali. Claro que  2 ou 3 mais intensas, como “Angela” e “Ana Luiza”, estão no “Jobim 90” pra fazer o movimento do repertório, mas neste disco gravamos todos ao vivo, o que também traz uma espontaneidade maior.

Qual o critério usado para escolher as canções?

Todas as músicas são letra e melodia do Tom. O critério foi esse. Eram mais ou menos 30, eu escolhi as 10 para as quais achei que eu podia ainda contribuir com minha interpretação. A maioria é de clássicos, como “Samba do Avião” ou “Chovendo na Roseira”, mas também incluí algumas menos gravadas, como “Two kites”.

Tom Jobim imprime alguma dificuldade especial para quem se aventura a interpretá-lo? 

As músicas do Tom em geral são adoravelmente difíceis de cantar. Algumas exigem muito – como “Passarim”, que tem uma extensão enorme -, “Ana Luiza”, que tem caminhos melódicos que a gente só percebe a dificuldade ao cantar, e “Chovendo na Roseira” que além da extensão grande tem também notas prolongadas e escalas bem danadas. Mas cantar o repertório de Tom é uma viagem tão prazerosa, tão leve, e tão brasileira, que as dificuldades são superadas.

As músicas do Tom em geral
são adoravelmente difíceis de cantar,
com notas prolongadas e escalas bem danadas

Tom continua sendo referência, pelo que você sente, junto a plateias mais jovens? Ou há algo similar ao bordão “McCartney who?”, com o qual pré-adolescentes gringos se mostraram ignorantes quanto ao Beatle e à história?

Sobre o reconhecimento do Tom aqui no Brasil, não vejo semelhança com o  “McCartney Who?”. Acho que ele foi muito interpretado por várias gerações, estilos, intérpretes nacionais e internacionais, e continua sendo, portanto isso não se aplica a ele. Entendo que a maior parte do brasileiros sabe ou pelo menos já ouviu falar em Jobim. Mas alguns gigantes da geração do Tom – como Johnny Alf – ficaram totalmente esquecidos. Sinto imensamente por isso, nesse caso especificamente. Acho uma pena o Brasil não ter reverenciado um gênio como o Johnny. A minha geração já não o conhece, imagine as mais novas.

90 anos de Jobim, 50 do tropicalismo e chegando aos 60 da bossa nova – esses grande números levam a pensar na criatividade e na abertura de novas veredas na MPB, mas não pouca gente acha que não há inovação consistente na música brasileira. Qual sua percepção?

Há uma cobrança enorme por novos compositores tão bons quanto os da geração do Tom, ou do Chico. Eu acho que a gente precisa parar um pouco com isso, e tentar entender que obviamente um país riquíssimo musicalmente continuará sempre a produzir boa música. Tem e sempre teve uma boa música sendo produzida, mas que não necessariamente está sendo ouvida. Isso acontece há pelo menos duas décadas. Alguns compositores da geração do Daniel Gonzaga por exemplo simplesmente pararam de compor. Não adianta, se não houver espaço pra tocar. O cara não tem como continuar, não há estímulo e não há como se sustentar dignamente com o trabalho. Como é que vamos cobrar novos nomes se não há os mesmos espaços que aquela geração tinha nas rádios, festivais, discos de outros intérpretes, tv?. Aí você pode dizer: “mas tem a internet”. E é verdade. Mas a internet é um mundo que tem um filtro. Pra encontrar tem que fazer um super garimpo e, hoje, as pessoas não têm esse tempo.

Dessa nova geração da MPB, quem é que você anda ouvindo?

Da nova geração de cantoras, eu sugiro ouvir a Ilessi e a Thais Motta… são duas cantoras com grande compromisso com a música.

Qual sua faixa predileta no Jobim 90?

Hum…Isso muda com o tempo. Quando eu estava gravando era “Fotografia”, pro qual a Camilla Dias fez um arranjo com um andamento lento gostoso, fugindo das gravações de bossa nova dessa canção. Mas eu gosto muito de “Two kites”, que meu amigo e violonista canadense Reg Schwager fez o arranjo e tocou violão, guitarra e baixo. Fizemos essa música nos shows no Canadá e era sempre um prazer e um desafio. No último show do Canadá, eu e Reg fizemos de voz e violão em um evento privado, e o Reg brincou comigo: se a gente conseguir tocar isso de voz e violão, farei uma camiseta: “we played two kites in duo” (risos).

Tem disco novo no forno?

Não venho pensando em novo disco não. Normalmente faço 1 a cada 2 anos. Esse comecei a trabalhar em Maio, então pretendo trabalhar com ele até o final de 2018. Ano que vem tem o aniversário de 60 anos da bossa nova e já tenho shows no exterior e o CD se adapta perfeitamente ao tema, muito embora o Tom transcenda a bossa nova.

 

Show “Jobim 90” no Sesc Pompeia

 

Onde comprar o CD

“Jobim 90”, além de outros álbuns de Fernanda Cunha, pode ser adquirido em versões física ou digital no site www.fernandacunha.com

 

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