Embarque no ônibus da palavra - e agradeça - Kultme

Embarque no ônibus da palavra – e agradeça

Berçário de palavras

Berçário de palavras

 

Já admiti, numa crônica anterior, que tenho uma forte queda pelos dicionários. Então, os leitores não devem ficar zangados se, volta e meia, eu retornar a esse assunto. É doença crônica.

No dia a dia, em casa, no trabalho, na rua, falando, lendo ou escrevendo, somos todos assíduos usuários das palavras. Elas são uma ferramenta essencial para nossa existência e, em muitos casos, representam elementos de vida e morte.

Se elas fazem tanto por nós, a dura verdade é que somos insensíveis e mal-agradecidos, e nem sequer prestamos atenção a elas. Querem ver um exemplo? Vocês já pararam para pensar na enorme riqueza do verbo dar?

São apenas três letrinhas, mas com imenso estoque de possibilidades. A gente usa e abusa desse estoque todos os dias e nunca reserva um segundo sequer para agradecer ou simplesmente pensar nessa palavra. Se alguém perguntar o significado de “dar”, nossa tendência imediata será associar essas três letras à ideia de oferecer ou entregar algo.

Dar não é só conceder ou doar.
A gente usa e entende quase todos
os significados e nem percebe

Mas isso é apenas o comecinho da história. O verbo dar vai muito mais além. Ele é uma espécie de palavra-ônibus, carregado de significados. Se você consultar o Aurélio, vai constatar que esse minúsculo termo tem mais de uma centena de acepções — sendo que a maioria delas todo mundo usa e conhece. Só que nem se dá conta. Isso sem incluir as expressões idiomáticas baseadas em dar, que também são numerosas. Agora mesmo, sem querer, usei “nem se dá conta”, que significa não perceber.

Dar significa produzir, criar, gerar: “Laranjeira não dá goiaba”. Também pode ter o sentido de resultar em, tornar-se (“Dois mais dois dão quatro”). Também, quando quer se fazer de desentendida, a pessoa pode dar uma de joão sem braço. O verbo dar pode ainda embutir malícia, como no poema de Vinicius (“Era uma moça que dava”) ou na letra de Geni, do Chico Buarque: “Ela dá pra qualquer um / Maldita Geni”.

Não vou cansar vocês com exemplos, mas lembro que os significados de começar, admitir, julgar, bastar, publicar (“deu no jornal”), vender barato, comprar, ensinar, aplicar, inspirar etc. etc. — todos esses estão no imenso vagão do minúsculo verbo dar. E há muitos mais.

Pense. Será que esse vocábulo não merece ao menos um breve agradecimento? Não só ao verbo dar, mas às palavras todas. Afinal, a palavra é o atributo que realmente distingue o ser humano de todo o resto dos animais. Mas fiquemos somente com “dar”, como um símbolo.

Então, você aí que está lendo, diga mentalmente comigo: “Obrigado, verbo dar”.

***

*Carlos Machado é poeta e jornalista, editor do Alguma Poesia e cronista do Kultme

 

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