Tom Jobim e o cantor que pôs Drummond na boca do povo - Kultme

Tom Jobim e o cantor que pôs Drummond na boca do povo

 

Carlos Drummond em seu apartamento em Copacabana lá por 1982

Carlos Drummond em seu apartamento em Copacabana lá por 1982

 

Por Carlos Machado*

O mundo da arte é recheado de contradições, surpresas e ironias. Vamos lembrar uma história, na qual se reúnem dois personagens próximos, o poeta Carlos Drummond de Andrade e o compositor Antonio Carlos Jobim, mais um distante, o cantor pop pernambucano Paulo Diniz.

Maestro, compositor e letrista, o imenso Antonio Carlos Jobim (1927-1994) é talvez o compositor popular brasileiro mais conhecido no mundo inteiro. São poucos os criadores, em qualquer latitude, capazes de inscrever tantas composições no cancioneiro internacional: Desafinado, Garota de Ipanema, Wave, Dindi, Insensatez, Águas de Março etc. Para competir com ele, só mesmo autores com o estofo de um Cole Porter, Burt Bacharach ou Paul McCartney.

Jobim era amigo de Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) e fervoroso admirador de sua poesia. Isso quem conta é o próprio autor de Águas de Março. Ele diz que sabia de cor vários poemas do mineiro, e que o próprio Drummond lhe pediu que musicasse poemas dele. Contudo, ele confessa: “Mas eu nunca me atrevi a musicar Drummond porque a poesia dele é tão completa, tão bonita, que eu sempre tive medo de estragar tudo…”

Jobim até lembra que adicionou música a trabalhos de outros poetas. Um exemplo foi o poema Trem de Ferro, de Manuel Bandeira. Mas ele tem uma explicação. “Aquilo é uma coisa muito musical. O original já tem música! Ao passo que Drummond é um negócio da palavra. Não é o mesmo que dizer em sequência: ‘Café com pão é muito bom! Café com pão é muito bom! Café com pão…’ Então fica mais difícil”.

Jobim: “Nunca me atrevi a
musicar Drummond. A poesia
dele é tão bonita que eu sempre
tive medo de estragar tudo”

Portanto, Jobim jogou a toalha. E se ele, um compositor de canções universais, não foi capaz de musicar Drummond, é justo concluir que ninguém mais haveria de fazê-lo. Certo? Errado. Entra em cena Paulo Diniz (1940-), um cantor e compositor pop, proveniente de Pesqueira, no Agreste pernambucano.

Diniz se tornara ultraconhecido em 1970, quando lançou o elepê Quero Voltar para a Bahia, com o qual alcançou vários sucessos, mas nenhum maior do que a canção-título, que estourou no Brasil inteiro. A música era uma homenagem a Caetano Veloso, exilado do país junto com Gilberto Gil, após a dupla de baianos ter sido presa pela ditadura militar.

Paulo Diniz, em foto de 71: ainda bem que ele teve coragem

Paulo Diniz, em LP de 71: ainda bem que ele teve coragem

 

Dois anos mais tarde, em pleno apogeu artístico, o pernambucano gravaria o álbum E agora, José?. A canção José, que gerava o título do álbum, era o conhecido poema de Carlos Drummond de Andrade, musicado por Paulo Diniz. Assim, o que Jobim confessadamente não conseguira fazer o rapaz de Pesqueira não somente fez, mas também pôs na boca do povo como sucesso de rádio.

A vida sempre nos surpreende com suas ironias. Depois de Paulo Diniz, Milton Nascimento (Canção Amiga), Belchior (dezenas de poemas
no álbum duplo As Várias Caras de Drummond) e outros musicaram Carlos Drummond de Andrade. O baiano Alcyvando Luz (1937-1998), por exemplo, compôs pelo menos duas melodias com base em versos do poeta: Colônia e Memória, esta última gravada pelo Quarteto em Cy. Todas elas, no entanto (exceção feita à canção de Milton Nascimento), são obras desconhecidas. O grande destaque, com verdadeira reverberação popular, coube a Paulo Diniz.

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José (Paulo Diniz/Carlos Drummond de Andrade), com Paulo Diniz

Memória (Alcyvando Luz/Carlos Drummond de Andrade), com o Quarteto em Cy

*Carlos Machado é poeta e jornalista, editor do Alguma Poesia e cronista do Kultme

 

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