Jéssica, a justiceira apressada

justiceira

Na fila da inspeção veicular,
o rapaz desconhecido me conta
uma história interessante
sobre uma ex-colega minha

Por Carlos Machado*

Quem mora em São Paulo ainda se lembra — não com saudades, é claro — da inspeção veicular obrigatória. A historinha que vou contar é real e aconteceu justamente num local de inspeção veicular.

Marquei data e hora, paguei (este verbo era o mais importante do processo) e compareci ao local com meu carro. Só que cheguei muito antecipado e a moça da guarita não me deixou entrar. Explicou-me que eu precisava aguardar mais um pouco, e me indicou um local onde eu poderia estacionar e esperar. Assim fiz.

Enquanto aguardava, saí do carro e havia lá outras pessoas na mesma situação. Comecei a conversar com um rapaz que, segundo me falou, trabalhava numa empresa de tecnologia. Contei a ele que, coincidência!, eu era jornalista de tecnologia.

— Então o senhor conhece a Jéssica Paulini [o nome, aqui, é inventado]

— Conheço, sim. Trabalhamos juntos por algum tempo.

— Ah, eu gostaria muito de reencontrar a Jéssica…

Nisso, meu jovem colega de espera começou a me contar um episódio em que Jéssica figurava como protagonista. Ele namorava uma amiga e colega de faculdade dela e, certa vez, aprontara alguma com a menina. O casal teve uma rusga séria. Jéssica, sempre aguerrida, tomou as dores da companheira e foi “dizer umas verdades” ao namorado arteiro. Exaltada, Jéssica metralhou poucas e boas no ouvido do rapaz.

Passou. Daí a alguns dias, os dois pombinhos estavam outra vez de mãos dadas. Quem saiu chamuscada do episódio foi mesmo Jéssica, a justiceira. Ela não sabia o que fazer com a amiga que desprezara o esforço épico que fizera para colocar aquele sem-vergonha em seu devido lugar. Não me lembro o que ele contou sobre o relacionamento das duas (ex-?) amigas após o acontecido.

— A gente era muito jovem, e a Jéssica, o senhor sabe, era bastante esquentada. Eu gostaria de encontrá-la hoje para rirmos juntos daquelas bobagens — concluiu o rapaz.

Contei a ele que também não via Jéssica fazia algum tempo. Ela é hoje uma senhora casada, executiva — e certamente bem mais ponderada. A esta altura, já deve ter aprendido o velho ensinamento popular que, na maioria dos casos, é conselho infalível: em briga de marido e mulher…

* * *

Carlos Machado é poeta e jornalista, editor do Alguma Poesia e cronista do Kultme, para nosso orgulho :)