Mostre, não conte: por que os filmes mudos nos emocionam tanto? - Kultme

Mostre, não conte: por que os filmes mudos nos emocionam tanto?

Pai_e_Filha

Curta metragem Pai e Filha: com ele, animações sem diálogo se tornam arte

 

Por Julia Milreu*

De tomadas de três segundos que gravavam cenas do cotidiano a longas-metragens de blockbuster repletas de novas tecnologias, a produção de audiovisuais no Cinema percorreu um longo caminho.

Em seu início, o Cinema era visto como mescla do teatro e fotografia: o primeiro, devido ao posicionamento dos personagens na cena; o segundo, à tecnologia utilizada para a captura da imagem. Cenário montado, os atores moviam-se voltados ao espectador, com atuações por vezes caricatas – necessitavam ter certeza de que o público estava entendendo tudo o que acontecia.

Pai_e_FilhaO que tornou
o Cinema uma
linguagem?

Foi a inovação de George Méliès que iniciou a evolução do Cinema para a Sétima Arte. Antes preso à ideia de que precisava mostrar os cenários inteiramente, a proposta de decupagem e montagem, iniciada por Méliès, transformou a maneira de produzir audiovisuais.

Escolhendo qual fração da ação mostrar, o diretor tinha em suas mãos o poder de passar o significado e a sensação desejada aos telespectadores. Postergar uma questão narrativa. Criar ritmo. Fornecer contexto. Criar conexão. Evidenciar um detalhe. Retirar eventos desinteressantes.

Ao invés de uma cena onde toda a ação dramática acontecia sem cortes, sempre da mesma visão, agora era viável utilizar-se de planos e ângulos para aumentar o teor dramático da cena ou imbuir significados simbólicos.

Pai_e_FilhaA inserção
do som
no Cinema

Tudo caminhava perfeitamente. O cinema passou a ser visto como uma linguagem: agora, ele poderia comunicar significados! A arte poética no Cinema mudo era amplamente utilizada, repleta de metáforas e recursos cinematográficos para transmitir a mensagem desejada.

E então… Música. Efeitos sonoros. Diálogos. A introdução do som no cinema modificou, novamente, a produção do audiovisual. Dessa vez, entretanto, foi recebida com pouco entusiasmo por diversos cineastas. André Bazin, crítico de cinema, dissertou sobre como a imagem passou a se subordinar perante o som. A linguagem cinematográfica estava sofrendo um retrocesso, perdendo os elementos que fizeram o cinema ser visto como uma arte.

Imagine a situação: você está escrevendo um roteiro. Para a história, precisa indicar que uma pequena garota é órfã. Qual o caminho mais fácil? Fazer algum personagem dizer isso:

– Onde estão seus pais, garota?
– Mortos. Estão mortos.

Final da história. Todos entenderam que a garota é órfã. O telespectador adulto entendeu. As crianças entenderam. O papagaio da família entendeu. É uma solução viável, e, dependendo do público alvo e do intuito da obra, funciona. Mas seria a melhor escolha?

E se, ao invés de fazer algum personagem contar, com todas as letras, algum fato importante da narrativa, o roteiro seja construído para mostrar visualmente isso? A garota poderia estar sozinha no dia de visita dos pais. Ela poderia adentrar a sua cabana vazia, uma cama de casal visível ao fundo, com teias de aranha por cima.

Martel, cineasta, aconselha: “ao invés de fazer alguém explicar algo, por que não mostrar?” Tal conselho segue o conceito originado na literatura – e posteriormente adaptado para o Cinema – conhecido como “Mostre, não conte”. Ele se baseia na defesa da utilização do som de forma criativa, feita por diversos cineastas, confiando no potencial sugestivo da música para enriquecer as narrativas do filme, ao invés de apenas traduzir a mesma informação visual para o âmbito sonoro.

O roteiro literário, por anteceder as etapas de construção da estrutura visual dos filmes, costuma ser o primeiro a se recorrer na hora de resolver essas questões narrativas. Recordam-se, entretanto, do início do cinema, quando a inovação da composição da cena elevou o teor poético das obras? Essa mesma composição passou a servir como outra ferramenta cinematográfica, capaz de auxiliar – ou até mesmo solucionar! – os mesmos problemas. Como? Alguns exemplos, a seguir, vão deixar isso mais claro.

‘Pai e Filha’. Análise de um curta animado sem diálogo

Father and Daughter, de Michaël Dudok de Wit

 

Dirigido e escrito por Michael de Wit (2000), o curta-metragem holandês “Pai e Filha” retrata, utilizando a técnica de animação 2D, a relação de uma filha com o seu pai. Ganhou, em 2001, o prêmio de Melhor Curta Animado no Oscar. Uma especificidade dessa obra é a ausência de diálogos em sua estrutura, fator que não diminuiu o teor dramático do curta.

Quais ferramentas cinematográficas foram utilizadas para expressar as emoções necessárias para que o curta fosse apreciado?

A conexão existente entre a cena inicial e a cena final do curta, construída primeiramente no roteiro, é essencial para a dramaticidade melancólica transmitida pela obra. Esse elemento sozinho, entretanto, não atingiria o potencial da cena. A composição contribuiu neste quesito.

A grande maioria dos enquadramentos do curta são Planos Gerais e Planos Abertos. O fato de que os principais planos do curta sejam distantes não diminui seu teor emocional: ao criar uma composição onde os personagens estão sempre distantes, o diretor evoca a sensação de solidão sentida pela filha após a perda do pai.

Nota-se que os únicos momentos com enquadramentos fechados são os Planos Detalhe nas rodas das bicicletas. Tal item material é mostrado, no início da animação, como uma conexão entre a filha e o pai, e posteriormente, para simbolizar como a filha continua a seguir a tradição que tinha com o pai, demonstrando tanto a sua solidão quanto a saudade que sente.

Pai_e_FilhaSensação de olhar cotidiano,
de normalidade,
intensifica a ligação emocional 

As angulações utilizadas são, majoritariamente, neutras. Ao colocar o ponto de vista do espectador de forma plana, a sensação transmitida é um olhar do cotidiano, de normalidade, o que permite a intensificação da ligação emocional com a narrativa da história. É estudada, também, a paleta de cores: os tons terrosos são comumente classificados como passíveis a transmitir a sensação de tradição, confiabilidade, solidez e segurança. Todas essas sensações podem ser relacionadas ao modo como a filha se sente em relação ao pai, adicionando, ainda, a solidão representada na baixa saturação das cores. O marrom simboliza, também, o envelhecimento, que acompanha toda a trajetória da personagem desde a infância até a velhice.

Todos os elementos – a música, a composição, o roteiro, a paleta de cores – seguem o princípio “Mostre, não conte”, ao encontrar soluções que fogem do óbvio ao contar uma história.

Fale menos, mostre mais

A existência do diálogo não deve ser vista como algo pejorativo em uma obra audiovisual. Desde que pensado de forma criativa, não expositiva, o diálogo pode ter muito a acrescentar à trama. Deve ser acrescentado apenas se, sem tal fala, a cena seria interpretada de outra maneira. Se ela apenas repete a informação que se entende pelo visual, é uma fala expositiva.

Ao invés de fazer um personagem falar que gosta de fazer palavras cruzadas, inicie uma cena mostrando-o executando tal tarefa. Ao invés de fazer um personagem dizer que está doente, mostre-o tomando os remédios. Ao invés de fazer um personagem dizer, com todas as letras, “eu adoro rosa!”, mostre-o usando rosa!

Ao invés de contar, mostre.

***

*Julia Milreu Faria é acadêmica de Design de Animação Digital, aspirante a escritora e, principalmente, apaixonada pela arte de criar. (No Face, facebook.com/milreau)

Assista Wasteland 3D, curta de animação de Júlia exibido no AnimaMundi 2017

 

 

Comente via Face
,
%d blogueiros gostam disto: