Quinto elemento em cena: o Tempo no Teatro - Kultme Alternativa Cultural

Quinto elemento em cena: o Tempo no Teatro

relogio-dali

Por Admir Calazans*

“….no balanço das horas tudo pode mudar…”

Pois é, perecível ao tempo. No Teatro, este fator, o tempo, aparece em tom provocador. Ora atormenta o cronograma, ora brinca com os fazeres do elenco, ora passa rápido demais, ora vira um trem no esquecimento do ator, ora vira um tormento ao público que vai pegar o metrô, ora é presente, futuro ou passado. Ora é somente tempo.

Ao começar a falar no projeto de criação, nas reuniões, o tempo – presente – está lá. O famoso cronograma, quando começa a ser construído, faz com que o diretor ou produtor pense nas agendas dos envolvidos, nas possíveis datas para estreia, editais e afins. Todas as informações terão que ser colocadas no cronograma, ele é o alicerce do movimento do espetáculo, que vai da pré produção aos ensaios e destes para a produção e realização do projeto. E na pós produção também, pois todo começo há de ter um fim. E fim é o futuro atingido (ou não).

Há o tempo das agendas, o tempo dúbio sem lugar, o tempo de época, o tempo que dura e o que não acaba, o tempo do ator que é personagem e o do ritmo

Ao elenco cabe se organizar nas datas dos ensaios. Muitas vezes, o ator ou atriz, trabalha com a dubiedade do tempo. O tempo real do ator e o tempo do personagem. É imprescindível essa separação. Quem acompanha meu trabalho como ator na Cia Cafonas & Bokomokos, sabe que trabalhamos nossos espetáculos sempre na virada dos anos 60 para 70, época áurea da música chamada cafona e sua variação na moda e comportamento.

Nosso texto é apropriado para aquela época (tempo). Ao invés de: “Ele é um charme!”, diria: “Ele é um pão!” Portanto, é estudo e apropriação do texto. Nossos personagens em “Expresso Hamlet” podiam usar sapatos carrapeta, pois estavam inseridos naquele período. Pode-se, também, pegar uma dramaturgia de Tennessee Williams, por exemplo, e atualizar para hoje. O cinema adora isso. A televisão também. É a tal liberdade de criação, que “autoriza” trabalhar com uma adaptação de um texto de um tempo passado para um tempo presente ou futuro. Tem também, o tempo do ator no palco. No palco, não é ator, é personagem. Reflitam!

A gente, no teatro, brinca que quando um ator pensa no texto, passa um trem, ou seja, o tempo do pensar no texto faz com que os segundos pareçam um tempo alongado, um trem que passa e o deixa no vácuo. O público, inteligente que é, percebe. E o ator pode perder o tempo ritmo. Aquele tempo que dá o ritmo, a dança do espetáculo. A falta do tempo ritmo dá a famosa barriga – que é o tempo que cansa, que tira o interesse da plateia e faz com que ela olhe no relógio, pensando se a pizza estaria mais saborosa. Estão vendo como o tempo é um quinto elemento no Teatro? E tem mais.

Hoje em dia, tem montagens com tempo estendido demais. Algumas têm duas horas de duração e, por isso, acabam utilizando do intervalo, como forma de dar uma desacelerada no processo, permitindo um relaxamento do elenco, equipe e plateia. É o tempo do banheiro.

Eu, particularmente, não gosto de intervalo em espetáculo. Acho que quebra o encanto que o teatro traz. Só que para isso o espetáculo tem que estar afinadíssimo para transformar a vontade de mijar em prazer. Certa vez, fui assistir um espetáculo – “Jardim das Cerejeiras”, do Tchékhov – onde os atores utilizavam toda a caixa preta como instalação do cenário. Nós, o público, ficávamos no meio deles. A única forma de sair da sala seria passar por eles. Pois bem, o espetáculo era uma punheta sem fim. Texto, texto, texto, text, tex, te, t, zzzzzzzz. E durava umas duas horas. Eu, com uma hora, já estava com a bexiga gritando. Cansativo demais!

Saí, com a cara de pau, para uma toalete rápida. E voltei. E a punheta continuou. O tempo neste espetáculo não foi valorizado em nada. Ao final dele, os aplausos foram moles. Mãos de alface! Espetáculos não podem ter um tempo estendido demais, nem tão curtos que não se pense neles. Estudar o tempo é fundamental.

Aplausos de mãos de alface:
teatro não pode ter tempo estendido
nem tão curto que não se pense nele

Uma história que duraria anos para ser contada no teatro é contada em uma hora e minutos. Novamente, o tempo se readequando. Isso é teatro. É importante salientar que, embora seja teatro e que precisa ser adequado o tempo, não pode ser uma correria sem fim. Tempo e ritmo não são sinônimos de corre-corre. A pressa é inimiga da perfeição, já dizia o provérbio. O tempo deve proporcionar tranquilidade e cadência para a história a ser contada.

O tempo é o nosso grande amigo no palco. Só não o deixe desamparado!

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Um livro para ler – Dario Fo nos abandonou em outubro de 2016 – e deixou um legado teatral para a humanidade. Neste Manual Mínimo do Ator, ele versa sobre técnica teatral, mas enveredando pelo teatro popular, sensibilizando o leitor para as nuances da narrativa dramática. Nas melhores livrarias da sua cidade – ou no link à esquerda, que o levará direto para a Amazon. Corra, há tempo.

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*Admir Calazans é ator, diretor, produtor e professor teatral – e virginiano. Ama música e vôlei, adora conhecer e reconhecer pessoas e acredita fervorosamente na humanidade, mas não tem paciência pra falta de educação e gente que acha que é a bala que matou Kennedy. Para contato, dúvidas & indagações, billybrazuca18@yahoo.com.br ou facebook.com/admir.calazans

 

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