Design como solução para a crise brasileira - Kultme Alternativa Cultural

Design como solução para a crise brasileira

Florencia Ferrer

Florencia Ferrer

 

 Em um momento em que novamente se torna aguda a crise política brasileira, a socióloga e pós doutora em Governo Eletrônico Florencia Ferrer levanta a questão de como o design de serviços aplicado ao setor público pode se tornar uma das bases para pensar saídas para o País. “Estamos tão engolfados na crise que sequer olhar novas soluções para ela conseguimos”, reflete Florencia, tentando explicar por que o conceito de design de serviços públicos é tão pouco discutido no Brasil. Uma das palestrantes em seminário internacional promovido pela organização Design Para Vida (www.designparavida.com), ocorrido no final de maio em São Paulo, Florencia Ferrer explorou ainda no evento maneiras pelas quais ideias como a de eco-design podem ajudar a gerar políticas de Estado indutoras do desenvolvimento baseado em economia de baixo CO2. É o que ela conta na entrevista a seguir.

O que é design de serviços públicos?
É uma maneira de repensar uma série de ideias relacionadas ao planejamento e à execução de tarefas típicas do poder público, incorporando ao cidadão e ou a sociedade organizada a pensar suas demandas e como quer receber os serviços.

Então diz respeito ao planejamento e a entrega de ações do poder público?
Sim. Co-design se refere ao pensar, planejar e entregar serviços e até o co-governo. Somar ao cidadão a formulação de políticas públicas e não só consultá-lo plebiscitariamente a cada quatro anos. A questão vai muito além de votar a cada tanto para escolher governantes: diz respeito ao que ocorre nesse intervalo.

Como isso se dá na prática?
O cidadão deve perceber que as coisas não dependem só do Estado. As resoluções e até o apontamento de problemas dependem do próprio cidadão. O Estado não sabe tudo, não pode resolver todas as demandas e sequer sabe das demandas se o cidadão não as leva até o Estado.

Até onde isso pode ir?
Até muito longe. Por exemplo, que novas leis e regulamentos eu gostaria de ver existindo ou que alternativas seriam mais confortáveis para meu contato com o Estado? Será que quero receber a cobrança de impostos pelo correio ou posso dizer ao poder público que prefiro receber por aplicativo no meu celular? Quanto isso vai simplificar minha vida e diminuir custos do governo, ajudando a que ele gaste menos e cobre menos imposto? São coisas que parecem pequenas, mas têm importância monumental quando em escala.

No atual momento político brasileiro parece difícil que governos ou cidadãos parem para refletir.
Sim, estamos tão engolfados na crise que sequer olhar novas soluções para ela conseguimos. Isso é muito ruim. A noção de design de serviços no setor público é uma ponte importante para se chegar a soluções novas para imbróglios como o que se vive no Brasil hoje. É uma tendência muito forte em locais como na região do Euro, na Austrália, Reino Unido ou Uruguai, onde essa discussão está mais avançada.

Onde mais o design de serviços pode ajudar na solução de problemas ligados ao poder público?
Há várias outras interfaces. Uma delas é a ambiental. O Estado é o maior comprador de qualquer serviço ou produto, e isso não só no Brasil. Então ele tem um papel importante enquanto consumidor de praticamente qualquer coisa, de canetas a detergente líquido ou papel de escritório. Coloque o design ambiental nessa equação e se percebe que o Estado pode ser a diferença entre o país ter uma economia mais verde ou com maior pegada de carbono. O Estado, como maior comprador de um produto, tem a capacidade de induzir a produção mais sustentável desse produto e mudar o mercado com isto. O Estado pode viabilizar um novo produto ou sua escalabilidade.

E o descarte pós-consumo?
Também ele. Os governos, especialmente por estarem no meio de crises de pagamentos, deveriam estar urgentemente repensando o que compram e como compram, estimando as pegadas hídrica, de carbono e assim por diante, bem como seu papel na criação de uma economia de baixo CO2. Porque isso impacta positivamente os custos de ações governamentais. Soluções imaginativas, como incluir borracha de pneus descartados na formulação de asfalto, diminuem custos de pavimentação de estradas, ajudam a reciclar borracha, melhoram a qualidade das vias e com isso a segurança de quem as usa, além de livrar lixões de produtos agressivos e evitar focos de Aedes. Há tantas benfeitorias, diretas e indiretas, nessa única ação, que ela se justifica com facilidade. Isso é eco-design.

Saiba Mais
Design Para Vida – www.designparavida.com

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