John Coltrane

Revisita a John Coltrane. Mas com coração brasileiro

Livre Arbítrio reinterpreta John Coltrane: levada brasileira

Livre Arbítrio reinterpreta John Coltrane: levada brasileira

 

Por Mauricio Bonas

Um dos semi-deuses do mais alto panteão do jazz, quando fora de seu meio-ambiente natural John Coltrane é muitíssimo mais conhecido pelo nome do que pela música que fez. Não é difícil perceber isso. Basta perguntar a uns pares de amigos se já ouviram falar nele. A resposta usual é um sim quase atônito, desses que se dá a perguntas idiotas.

Mas então peça que o amigo cantarole uma canção ou um pedacinho de uma composição do mestre. Pronto. Saia justa em ação. Com honrosas exceções, nada virá. Esse é um paradoxo pop que ocorre não só com Coltrane, mas ao menos no caso do saxofonista e compositor nascido em 1926 na cidadezinha de Hamlet – olhe o nome evocativo – na Carolina do Norte, uma parcela do desconhecimento popular pode se desmontar a partir de iniciativas como a que o grupo carioca Livre Arbítrio anda planejando para o início de julho de 2017.

O quarteto, formado por músicos experientes e sem medo de avançar por caminhos não trilhados, vai a palco com convidados igualmente destemidos para rever a obra de Coltrane nos dias 7 e 8 de julho em um pub na Tijuca, zona Sul da capital fluminense.

O mês escolhido para o show, por acaso mas nem por isso menos notável, é o mesmo em que John William Coltrane se despediu da vida. Ele morreu cedo, aos 40 anos, em 17 de julho de 67, no auge de sua inventividade, que o levava então a vôos investigativos cada vez mais abrangentes e livres – e que, já na época, foi a definitiva peça para a montagem da sonoridade dos anos 60, utilizada pelos Doors, por Carlos Santana e Hendrix para moldar seus estilos. Coltrane foi, ainda, a figura decisiva na definição do que viria a se chamar jazz-rock. A lisérgica canção Eight Miles High, lançada pelo The Byrds no inverno de 65 e fundadora da fusão rock & jazz, é considerada como derivada direta das ideias do saxofonista.

Afro Blue por Livre Arbítrio

 

Por tudo isso a iniciativa do Livre Arbítrio é boa. Mas ela vai além e acrescenta o ótimo na fórmula com um detalhe nas duas noites de shows em que Alessandro Pinheiro (Sax Tenor), Maurício Figueiredo (Contrabaixo elétrico), Reinaldo Pestana (Bateria e Percussão) e Renato Catharino (Teclado), do grupo, contracenarão com o Bruno Lara Quarteto e com o João Braga Trio.

O tal detalhe está nos ritmos, na ginga, no balanço de DNA brasileiro que os músicos imprimem em suas performances. De forma mais clara: o projeto revê a criação de Coltrane através da batida do coração brasileiro, se utilizando de molejo rítmico de estilos como o Jongo, o Sambajazz e o Ijexá, entre outros que são somaticamente conhecidos, por assim dizer, de nós cá brasucas. Isso muda a brincadeira. A compreensão da mudança não se dá na cabeça, mas no corpo, no aparelho sensorial, na emoção: ouvir as recriações do LA sobre Coltrane, nesta página, dá essa noção mais claramente.

Equinox por LA

 

“Sob a luz da musicalidade atemporal de Coltrane, que nos faz pensar, sentir, refletir, sorrir e até revigora nossos ares na esperança de um mundo melhor, as possibilidades se tornam inúmeras. As músicas de Coltrane proporcionam diversas possibilidades ao explorar o espaço sonoro em cada ritmo e melodia”, diz o grupo em um manifesto deste seu primeiro projeto de revisão de obra de um dos grandes nomes da música instrumental. Sim, o primeiro. Depois de John, a intenção é percorrer outras trilhas abertas por gênios do jazz. Vida longa a eles.

Invitation por LA

 

SERVIÇO

  • Livre Arbítrio & convidados homenageiam John Coltrane
  • Quando: 7/7/17, às 21h (com Bruno Lara Quarteto) e 8/7/17, às 21h (com João Braga Trio)
  • Onde: Pub Punqs – Rua Desembargador Isidro 45 – Tijuca – Rio de janeiro
  • Quanto: R$30 (em dinheiro)
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