Sargento Pimenta, 50 anos depois - Kultme Alternativa Cultural

Sargento Pimenta, 50 anos depois

Miolo do álbum Sgt. Peppers: psicodelia à toda

Miolo do álbum Sgt. Pepper’s: psicodelia à toda

 

Por Carlos Machado*

Foi exatamente há cinquenta anos. Em 1º de junho de 1967, saiu às ruas o álbum Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band, dos Beatles, um dos produtos musicais que conquistaram o mais elevado prestígio na história da música popular. Alguns chegam a classificá-lo como o melhor disco de todos os tempos.

A Banda dos Corações Solitários do Sargento Pimenta chegou e logo reservou para si um lugar na História. O disco causou frisson, inclusive por causa da capa revolucionária, imitada numerosas vezes ao longo destas cinco décadas. Além da surpreendente foto, a capa trazia as letras das canções, o que na época representou absoluta novidade. Trazia também (na primeira edição) figuras em cartão, para recortar e colar, do Sargento, seu bigode e as dragonas.

Um jogo que deliciava o pessoal da época era tentar identificar quem era quem entre as 57 personagens escolhidas pelos Beatles para figurar na capa desse disco. Estão lá atores, como Marlon Brando e Marilyn Monroe; escritores, como Edgar Allan Poe, Oscar Wilde; e nomes variados, a exemplo de Karl Marx, Albert Einstein, Sigmund Freud, o pugilista Sonny Liston e o compositor Bob Dylan, hoje Prêmio Nobel de Literatura.

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Com treze faixas, o disco se abre com a canção-título, que seria uma espécie de hino da banda do Sargento Pimenta. Há, desde aí, uma ironia. A banda não se apresenta como uma proposta de vanguarda. Ao contrário: anuncia que o grupo musical do Sargento foi montado já faz vinte anos e, desde então, entrou e saiu da moda — mas sempre garante provocar pelo menos um sorriso.

Para reforçar a ideia retrô, logo depois é chamado o cantor Billy Shears. Entra Ringo, com sua voz grave, entoando With a Little Help from My Friends. A música-tema da banda vai retornar na faixa n. 12, que é a penúltima, sinalizando o final do show. Mas, da faixa 3 até a 11, não se mantém na verdade a ideia de álbum conceitual — ou seja, um disco cujas canções todas, ou a maior parte delas, contam uma história ou se agrupam em torno de um mesmo tema.

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Nas faixas intermediárias, as letras contam histórias do cotidiano. Lucy In The Sky With Diamonds tem um clima fantasioso e onírico. Fala de uma menina chamada Lucy que deve ser prima da Alice, aquela do País das Maravilhas. Consta que Lennon teria escrito essa canção com base num desenho feito pelo filho Julian, que explicou tratar-se de Lucy (uma coleguinha de 4 anos) no céu com diamantes.

Salto para a faixa 6, She’s Leaving Home. Fala de uma moça que foge de casa. É o chamado “conflito de gerações”, muito discutido na época. Acho que um dos melhores momentos entre todas as letras dos Beatles está nessa canção. A moça sai de casa, furtivamente, às cinco da manhã, enquanto os pais ainda dormem e deixa um bilhete.

Silently closing her bedroom door (…)
She goes downstairs to the kitchen clutching her handkerchief

[Fecha silenciosamente a porta do quarto (…)
e desce para a cozinha apertando um lenço]

Essa aliteração (kitchen klutching her handkerchief) é genial. Repetidos, os sons /k/ e /tch/, mais /f/, parecem acentuar o momento de tensão emocional da menina e de segredo na madrugada.

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beatles-mrkiteA faixa 7, Being For The Benefit Of Mr. Kite merece menção especial. Em janeiro de 1967, John Lennon entrou num antiquário e lá comprou um cartaz de 1843 do Circus Royal, que pertencera a um sujeito chamado Pablo Fanque. Em casa, o beatle sentou-se ao piano e começou a tentar encaixar uma melodia nas palavras do cartaz. Assim nasceu essa canção.

Várias partes da letra, começando pelo título, correspondem ipsis litteris ao que está no cartaz. Lennon pegou de lá alguns personagens, como Pablo Fanque, Mr. Kite e os Hendersons. Usou também aquela linguagem exagerada do circo, que sempre apresenta “o maior espetáculo da Terra” e anuncia a bravura e a singularidade de seus artistas.

“Um momento esplêndido é garantido a todos”, diz ele na chamada para esse incrível show em benefício de Mr. Kite. Um diálogo quase improvável entre um circo de 1843 e uma banda pop dos anos 1960.

A única composição de George Harrison no disco é Within You Without You, uma canção à base de cítaras e outros instrumentos indianos. A letra também apresenta filosofia oriental. Produzida pelo próprio George, é a única faixa que não tem a marca de George Martin, o chamado quinto beatle.

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A faixa 9, When I’m Sixty-Four, é outra canção que reforça o contraditório tom retrô desse disco de vanguarda. Trata-se de uma composição de Paul McCartney feita ainda nos primeiros anos dos Beatles, mas só gravada em dezembro de 1966, quando a banda estava iniciando os trabalhos do Sgt. Pepper’s.

Na letra, quem fala é um jovem imaginando como será a vida com a namorada quando ele tiver 64 anos. Netos, economizar para alugar uma casinha na ilha de Wight no verão… Quem poderia pedir mais? Conforme o biógrafo Ian McDonald, o alvo dessa letra seriam os pais. E, segundo ele, os jovens da época a teriam recebido com frieza. Mas como isso foi há cinquenta anos, os moços de então hoje já passaram dos 60 e certamente devem adorar a música.

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A última faixa, A Day In The Life, vem depois da repetição do hino Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band. Bem ajustada ao título, a letra também aborda cenas do cotidiano. Lennon começa (“Cara, eu li as notícias hoje”) e cita vários fatos lidos nos jornais. Há um intervalo e McCartney entra, descrevendo o dia de um cidadão, que acorda, toma café, sai, entra no ônibus, vai para o andar de cima, acende um cigarro e entra num “sonho”.

Na época, essa canção não foi tocada nas rádios inglesas. Entendeu-se esse cigarro seguido de sonho como referência a marijuana. Do mesmo modo, a parte de Lennon termina dizendo I’d love to turn you on (eu gostaria de deixar você ligado), outra expressão associada a drogas.

Um dos destaques dessa faixa, o gran finale do disco, é o arranjo exuberante. Dezenas de músicos participaram da gravação. Além disso, efeitos de estúdio provocam a impressão de que havia uma orquestra de 160 componentes.

Afora as gravações em estúdio, os Beatles jamais registraram em vídeo a execução ao vivo de qualquer uma das canções do Sgt. Pepper’s. Assim, ironicamente, o álbum mais celebrado da banda é também o que só deixou memória de áudio e fotos.

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Para finalizar, uma curiosidade: as canções Strawberry Fields Forever, de John Lennon, e Penny Lane, de Paul McCartney, lançadas num compacto simples em fevereiro de 1967, haviam sido compostas para integrar o álbum. Em seu livro Paz, Amor e Sgt. Pepper (1994), George Martin, o maestro e produtor dos Beatles, conta por que elas ficaram de fora.

sgt.pepper.cover2Como as duas músicas já haviam feito muito sucesso, ele diz que não fazia sentido incluí-las. “Pelo nosso jeito de pensar, isso seria pedir às pessoas que pagassem duas vezes pelo mesmo material”, escreve ele. E explica: “Eu sei que parece ridículo nos dias de hoje: agora um compacto de sucesso é frequentemente usado para vender um álbum inteiro. Mas pensávamos diferente naquela época.”

Pois é. Foi exatamente há cinquenta anos.

*Carlos Machado é poeta, editor do Alguma Poesia e colunista do Kultme

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