Com a morte decretada, MP3 deixa bilhões de músicas órfãs. SQN! - Kultme Alternativa Cultural

Com a morte decretada, MP3 deixa bilhões de músicas órfãs. SQN!

Time de criadores do MP3, em 1987

Time de criadores do MP3, em 1987

 

Curiosos em geral costumam se perguntar como os habitantes do velho Egito conseguiam cortar com precisão milimétrica grandes blocos de rocha para construir suas pirâmides. Desconsiderando a ideia de que eram auxiliados por ETs, resta a constatação de que os egípcios tinham tecnologias muito específicas – que se perderam ao longo do tempo. Pois é, na história humana a evolução se dá com perdas, e o chato é que elas só são notáveis quando tarde demais. Mas talvez nesse exato momento estejamos vivendo um desses instantes de morte tecnológica – e poder observá-la ao vivo pode ser fascinante.

A perda em questão é de uma tecnologia que começou a ser criada lá no fim dos anos 1970 – a do MP3. O formato de arquivo digital que mudou tudo no cenário musical teve sua morte anunciada neste maio de 2017 – 22 anos após seu nascimento oficial, no nem tão longínquo ano de 1995. O anúncio do fim desse jovem incendiário que balançou as estruturas da indústria da música foi feito pelo Fraunhofer IIS, o instituto de pesquisas alemão que é pai e mãe do MP3. Aliás, bem mais pai: a equipe de pesquisadores que o criou não tinha mulheres.

Em comunicado nada emocional, o Fraunhofer disse que a última patente referente ao MP3 se esgotou em abril – e que não dará mais suporte ao formato, agora livre de copyrights. Na prática, quer dizer que mudanças que impactem o funcionamento do MP3 não implicarão em adaptações “oficiais” no conjunto de software feitas por seus pais. Só isso.

Pode não parecer muito, mas imagine que surja um novo sistema operacional totalmente diferente de tudo que existe. Pronto. O MP3 não terá mais uma casa onde ir para se adaptar. Em outras palavras, ele pode não funcionar mais em certos novos ambientes. Isso é ruim. Mas significa a morte do formato de arquivo? Não, em absoluto.  Isso é só uma maneira simplista de entender o evento (e de fazer manchetes bombásticas para matérias, como a que fizemos!).

Além de tudo, com patentes livres qualquer pessoa pode mudar coisas no padrão para adaptá-lo a novos ambientes. E essa é uma ótima notícia. Mas que pode, também, gerar alguma bagunça. Quem usa computador com variantes do Linux sabe o que significa. Com muita gente mexendo, por vezes as coisas não funcionam bem em conjunto.

Criação do MP3 foi tão
impactante quanto a invenção
da gravação por Edson

Uma coisa é certa: o mundo não foi o mesmo após o nascimento do MP3. Quem não viveu seu início, em 1995, não pode imaginar o que esse punhado de linhas de código significou. A possibilidade de gravar horas de música em arquivos digitais pequenos e portáveis, usando apenas um PC e um software como o histórico Nero Burning ROM, e depois transitar livremente esses arquivos pela então nascente internet foi algo tão impactante quanto a invenção do disco de áudio por Thomas Edson.

Nero: 1º software a abraçar o MP3 continua vivo (e bem diferente)

Nero: 1º software a abraçar o MP3 continua vivo (e bem diferente)

Se antes a música só podia ser usufruída crua, ao vivo, Edson permitiu que ela fosse fixada em um dispositivo móvel, o disco. Mas isso ainda exigia equipamentos grandes e movimentação física do vinil – ou de fitas, CDs e outros invólucros físicos. O MP3, que demorou quase 20 anos para ser desenvolvido pela turma do Fraunhofer, mudou essa lógica.

A mobilidade se tornou total: de um só ponto no espaço-tempo era possível duplicar infinitamente uma música, e sem perda de qualidade. Antes, a duplicação só se dava no um a um: eu copio um vinil em uma fita cassette e ponto. Além disso, com arquivos pequenos, centenas e logo milhares de músicas puderam ser juntadas em um único dispositivo – um PC, um CD ou pen drive, por exemplo -, algo que antes só era possível em filme de ficção científica.

Depois do MP3, os conteúdos musicais se democratizaram. Músicos deixaram de depender exclusivamente, para a distribuição, da indústria fonográfica, e consumidores sem dinheiro para adquirir um CD ou vinil puderam, de alguma maneira, ter acesso a seus conteúdos. Sim, isso significou pirataria a princípio – mas hoje é o que permite a você comprar uma faixa musical por poucos reais e tê-la na hora em seu celular ou computador.

Nos anos 90, especialistas diziam
que nunca existiria um
aparelho portátil de MP3

Essa ideia já estava na cabeça dos pesquisadores que trabalharam no projeto do MP3. “Nossa visão, lá pela metade dos anos 90, era de que qualquer pessoa um dia poderia levar suas músicas em um dispositivo portátil”, relembra Harald Popp, um dos inventores do formato. “Mas naquela época muitos especialistas diziam que jamais existiria um aparelho portátil capaz de acomodar a complexidade do MP3.”

No fundo, estes descrentes não só duvidaram do MP3 como também não conseguiram pressentir toda uma indústria criada a partir dele para gerar novas maneiras de usufruir música. Empresas pioneiras como a Nero, fundada em 1988 e ainda atuando no mercado de multimídia, ou mesmo fabricantes que usam o formato em seus equipamentos de áudio até hoje, como a Sony, não teriam avançado tanto quanto avançaram sem o MP3.

Lembra deles? E diziam que isso nem existiria

Lembra? E diziam que isso nem existiria

Mas, e agora? O que ocorrerá se o MP3 desaparecer assim como sumiram as técnicas de cortar rochas dos antigos egípcios? Bem, o fato é que embora revolucionário, o MP3 vem perdendo espaço para arquivos mais interessantes – em tamanho e em qualidade do áudio. Formatos como AAC e FLAC, já suportados por novos softwares de transcodificação e de execução, oferecem arquivos menores e som melhor.

O AAC, aliás, é filho dileto do MP3: foi criado pela equipe da MPEG, entidade que congrega fabricantes para criar padrões globais. Não por acaso, a MPEG a partir do fim dos anos 80 acabou se envolvendo na criação do MP3 – tanto que a sigla resume o nome completo do formato, ‘MPEG Audio Layer-3’.

Ou seja, o MP3 pode até morrer – mas permanece vivo em seu descendente.  Ainda bem.

 

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