O dia em que os Beatles e os Rolling Stones me livraram de uma fria - Kultme

O dia em que os Beatles e os Rolling Stones me livraram de uma fria

beatles-rolling-stones-1967

Por Carlos Machado*

Começo corrigindo o título aí em cima: na verdade, não foi um dia, mas uma noite, no início dos anos 90. Eu era jornalista de tecnologia e fui convidado para um evento da Lotus, empresa americana que há muito já virou História. Na época, era uma companhia poderosa, rival da Microsoft e fabricante do Lotus 1-2-3, a primeira planilha de sucesso no então florescente mundo da informática. (Alguém ainda usa esta palavra?)

Foi no centro de São Paulo. Quem não é tão jovem e mora na cidade, ou tem alguma intimidade com ela, será capaz de estimar há quanto tempo isso ocorreu com base no local do evento: o Hotel Hilton, aquele prédio redondo da avenida Ipiranga, quando ali ainda era um dos locais mais requintados para reuniões empresariais.

Eu estava lá, assim como boa parte dos jornalistas de tecnologia. Não lembro mais qual era a razão do encontro. Talvez a Lotus estivesse anunciando alguma coisa para o Brasil. No lado da empresa, a figura mais destacada era um diretor internacional, britânico, chamado Adrian Moss. Até hoje não esqueci o nome dele, e vocês logo vão saber por quê.

No meio do coquetel, que ocupava vários salões, formou-se em dado momento uma roda de jornalistas conversando com Mr. Moss. Como o visitante só falava o idioma da Sua Real Majestade, ficamos ali durante algum tempo dando tratos à língua. Pouco depois, notei que todos os colegas de ofício foram saindo de fininho, a roda se dispersou e, de repente, eu estava só com o diretor internacional. Xinguei mentalmente os desertores: “Canalhas! Fugiram pra tomar uísque e bater papo mais adiante, e me deixaram aqui nessa fria”.

Nada de Stones.
Eu sou de Liverpool!, o
gringo bradou

E agora, José? Todos os assuntos sobre a empresa e a planilha já estavam esgotados. Quanto faturou no ano passado, quais eram os planos para o Brasil, a nova versão do One-Two-Three. Para sair da saia justa, fiz um comentário qualquer, citando um ditado popular e embutindo um trocadilho com o sobrenome de meu interlocutor. O ditado era: a rolling stone gathers no moss. Lá, como aqui, pedra que rola não cria limo. Sim, o sobrenome do cara tinha a ver com limo.

Para minha surpresa, ele entrou na brincadeira e respondeu algo assim:

— Nada de Rolling Stones. Eu sou de Liverpool, e meu negócio é Beatles!

Pronto: eu havia descoberto, sem querer, a senha para iniciar um papo de gente, sem planilha, sem faturamento em dólares, sem plano de negócios. Começamos a trocar confidências beatlemaníacas, a comentar sobre essa e aquela canção e a fazer considerações sobre os músicos do quarteto conterrâneo de Mr. Moss.

Ficamos “amiguinhos”. Descobrimos que havíamos nascido no mesmo ano. Ele me falou sobre Liverpool em sua infância e adolescência. Acabamos percebendo que ele, na Inglaterra, e eu, no Recôncavo baiano, ouvíamos as mesmas canções de rádio na primeira metade dos anos 60. (Sim, a globalização já estava aí.)

Terminamos a conversa de “fã-clube” perguntando um ao outro:

— E qual foi a primeira deles que você ouviu?

Não lembro qual foi a do “amigo” britânico. A minha foi Eight Days A Week.

Os jornalistas que saíram de fininho para se livrar do idioma de Shakespeare não imaginaram que iriam me proporcionar uma conversa tão interessante e improvável. Um papo de gente. Graças a eles, os colegas desertores, aos Beatles e aos Rolling Stones.

* * *

The Beatles – Eight Days a Week, lançada no álbum Beatles for Sale, de 1964

 

*Carlos Machado é jornalista, poeta e editor do Alguma Poesia

 

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