Fandangos, Red Bull e sono. A odisseia de um álbum independente - Kultme Alternativa Cultural

Fandangos, Red Bull e sono. A odisseia de um álbum independente

Deck Rock: fazer novo disco foi 'odisseia'

Deck Rock: fazer novo disco foi ‘odisseia’

 

Formada em 2010 na região metropolitana de São Paulo, a Deck Rock corporifica o que significa ser uma banda de rock independente no Brasil. Com seu terceiro disco, Contracorrente, lançado há alguns meses e disponibilizado na web, o grupo se vê como mais ‘profissional’ que ao fazer os trabalhos anteriores (EP Como Tudo Começou, de 2011, e Viver é Saber Amar, de 2012), porém o sonho de viver apenas de música ainda é apenas isso, um sonho, para Ricardo Godoy (voz), PH Marques (guitarras, violões, teclados e voz), Ygor Aléxis (contrabaixo), Fernando Cescon (percussão e pads) e Giovani Reis (bateria). Mas isso não é ruim. É um processo de crescimento, como dizem os integrantes do grupo na entrevista a seguir. Ou, como fala uma das letras da Deck Rock, são aqueles “passos incertos no rumo certo” que fazem a diferença na vida – de pessoas ou de bandas.

● Vocês lançaram um álbum novo – “Contracorrente” – recentemente. Como foi o processo de composição e gravação do CD?
Ygor: Árduo e longo.

Ricardo: Quando começamos a levar a sério, já era essa formação. As músicas já existiam, mas começamos a gravar em estúdio ano passado. É importante agradecer ao Rodrigo, o Rodolfo, o Vini Fragazzi e o Léo, que contribuíram para o que a gente toca hoje.

Ygor: A minha definição para essa gravação é odisseia. (risos)

Giovani: As músicas estavam prontas há muito tempo. A gente estava tentando estabelecer um método e conseguir juntar o dinheiro para gravar o CD.

Cescon: Pensamos mais em harmonia e fizemos alterações no arranjo.

● “Contracorrente” é o terceiro trabalho de vocês. Que mudanças veem, desde o começo, no som de vocês?
Giovani: A gente estudou mais, perdeu preconceitos. A gente aprendeu fazendo.

Ygor: A gente parou de fazer pastel. A gente fazia pastel, não fazia música. “Ah, eu tenho isso aqui. Tananã. Tá pronto. Próximo”. Tinha ensaio que a gente compunha quatro músicas. Não que eu não goste do primeiro CD, mas é forte chamar de primeiro trabalho.

Ricardo: Não tinha nenhuma conotação profissional. A gente gravou em casa. Ele é muito cru, então tem essência, apesar de muita limitação.

Cescon: As músicas eram boas, mas a gente ainda não tinha se encontrado.

Ygor: O primeiro trabalho que a gente suou para fazer foi o Contracorrente. Ficamos ensaiando de madrugada durante a semana, compondo com sono, a base de fandangos e red bull. Trabalhamos muito.

Ricardo: E como grupo, todo mundo amadureceu. A amizade é uma coisa que sustenta a banda e não pode ser diferente disso. Somos amigos fora da banda. Banda é terapia. A gente cresce e aprende junto.

Cescon: No começo, a gente estava na escola. Era aquela idade que a gente ainda estava se encontrando. Nós crescemos junto com a banda.

Ygor: Quando eu fiquei nove meses no sul fazendo faculdade, aprendi muita coisa sobre música. Toquei reggae, samba, música uruguaia. Perdi muitos preconceitos musicais que eu tinha. Quando eu cheguei aqui, não encontrei os mesmos caras também. Todo mundo ouvindo músicas diferentes. O PH trouxe muita coisa boa para a banda também. Eu cheguei diferente e não encontrei a mesma coisa. Foi um processo de mutação.

Cescon: Eu fiquei um ano fora estudando nos Estados Unidos. Voltei querendo gravar o CD de novo porque estamos muito melhores agora.

PH: É verdade, o que a gente faz ao vivo hoje é muito melhor do que aquilo que a gente gravou.

● A Deck Rock teve várias formações. Como foi essa história?
Ricardo: O projeto começou comigo e meu irmão. Era voz e violão. Não existia banda. Depois, conheci o Ygor e o Rodrigo Cemino.

Ygor: Isso era 2009. Depois, a gente chamou o Giovani.

Ricardo: Mas foi em 2010 que começou a formação como banda mesmo, com baixo, guitarra, bateria e voz. E a gente se conheceu em um centro espírita (risos).

Cescon: Eu entrei na banda no final de 2010. Fui chamado para fazer teste como baterista, mas surgiu a percussão e a gente adicionou isso na banda.

Ricardo: O Cescon tinha que ficar na banda. Nem que a gente precisasse inventar um novo instrumento.

Ygor: A gente precisava dele na percussão. Ele veio com a ideia, a gente gostou e ficou.

PH: A formação não é a mesma do começo. Muita gente entrou e saiu. Na guitarra, principalmente, passaram cinco pessoas. Eu entrei em 2013. Fui o último. Comecei no baixo, na época que o Ygor foi estudar fora. Depois, fui pra guitarra.

Ricardo: Mas a base da banda continua: somos eu, Ygor e Giovani. Os primórdios ainda estão aqui.

Ygor: E a gente é a gente agora. Não tem jeito. Até o fim.

● Quais as influências musicais de cada um de vocês?
Ygor: Depende do ano. (risos)

Cescon: O que acho legal na banda é que cada um tem uma influência diferente. A gente tem influências em comum, mas cada um tem outras que somam. Eu tenho bastante influência da MPB, RAP, rock nacional e reggae.

Ricardo: Minhas influências são as mais malucas. Vai desde Beatles até MPB, como Novos Baianos e Secos e Molhados. E, também, rock n roll e punk rock. É difícil citar nomes. Gosto de Ramones, Led Zeppelin..

Ygor: São fases, né? A gente já gostou muito de Barão Vermelho. Agora, estamos procurando uma identidade. Todo mundo gosta um pouquinho de grunge. Todo mundo gosta de rock nacional. Acho que grunge e rock nacional tem mais a ver com a gente. E brasilidades, também.

Giovani: Eu tenho como principal influência o rock em geral. Comecei escutando Beatles, depois hard rock. Escutei muito grunge também. Agora estou procurando influências latino-americanas. Estou ouvindo várias bandas argentinas e uruguaias. Buscando outras fontes de inspiração em bandas que são pouco conhecidas. De outros gêneros. E gosto bastante de reggae e MPB.

PH: Dentro do meu instrumento, eu busco desde o começo do blues, desde Robert Johnson, até Stevie Ray Vaughan. Música brasileira também me influenciou bastante na parte de harmonia. Por tocar um pouco de cada instrumento, eu tenho influência de diversos estilos. Desde xote, jazz e música brasileira, desde o rock nacional até o mais psicodélico do Clube da Esquina. E grandes compositores também, a parte poética da música brasileira. Milton Nascimento, Ivan Lins, Oswaldo Montenegro, Lenine, Chico, Caetano e Gil.

● As letras de vocês falam muito sobre política, como Cara de cifrão e Ombros dos gigantes. Já tiveram discussões motivadas por política?
Ygor: Não temos os mesmos ideais partidários, mas temos um mesmo ideal social humanitário. A diferença está nos caminhos para alcançar esse ideal, mas o fim é o mesmo.

Cescon: A nossa religião sempre foi o amor. A gente acredita que a chave é amar e ser feliz.

Ricardo: É importante ressaltar que a gente vive em um país muito desigual. Nossas letras falam muito sobre isso. A falta de oportunidade. Quem vive na periferia não tem a mesma oportunidade de quem vive em uma zona mais nobre. Então, essas disparidades nos incomodam muito e isso une muito a banda. A gente acredita que os políticos precisam ver isso como uma meta primordial. Ele tem que ter boa índole e saber que essas disparidades precisam ser resolvidas. A gente fala a mesma língua quando a gente fala sobre isso.

PH: A gente tem a percepção de que o outro não é só o outro. “O cara é pobre, não tem oportunidade, então que pena”. A gente entende que, em sociedade, todo mundo depende de todo mundo. Todo mundo tem que se ajudar e se respeitar, independente de ideais e de percepções de mundo diferentes. A gente só é a gente por causa do outro. A gente é o outro do outro também.

● Qual foi o melhor show de vocês até hoje?
Giovani: Tem o melhor show da banda e o melhor show de cada um. Nesse lado individual, eu lembro que toquei muito no primeiro show que a gente fez no Morpheus. Agora, no coletivo, acho que aquele show no Manifesto que passamos para segunda fase. Tocamos só quatro músicas. Nós tínhamos vinte minutos para mostrar quem a gente era e conseguimos.

A gente estava tocando muito bem.
E a galera de Minas cantando as músicas.
A gente nem é de Minas!

PH: Em questão de energia entre a banda e a plateia, o show do Hangar no lançamento do CD e gravação do DVD foi incrível. A gente conseguiu levar bastante gente. Tocamos com uma outra energia porque era um show especial. Esse primeiro show no Manifesto foi uma  quase surpresa pra mim e pro Ygor também. Ele estava voltando do sul e era eu que tocava baixo. Ensaiei tudo no baixo. Quando voltou, descobri que ele ia tocar no show e tive que me virar na guitarra de última hora. A gente conseguiu se sair muito bem e passar pra próxima fase do festival pelos votos dos jurados. Quanto ao individual, eu acredito que venho melhorando no que eu vou fazendo nos show. Por mais limitado que eu seja no instrumento, venho aprendendo cada vez mais a tirar o melhor que o meu equipamento pode me dar, consigo descobrir coisas novas e experimentar cada vez mais no palco. Até mesmo na questão do figurino – eu tenho tocado com a mesma roupa todo show. (risos).

Cescon: É difícil escolher. O show que eu toquei melhor foi o do Hangar. Eu tinha acabado de voltar dos EUA e tinha feito apenas um show antes desse.

Ygor: O show do Hangar acho que é unânime. Um dos shows que mais me emocionou foi um que fizemos em Poços de Caldas. O cenário estava incrível. Estávamos sentados e tinha um pessoal sentado na nossa frente, estava bem intimista, e, no fundo, tinham morros com casas com as luzes acesas. Como tocamos no fim do dia, dava para ver a tarde acabando e o sol se pondo. A gente estava tocando muito bem. Era um acústico muito bem ensaiado. E a galera de Minas cantando as músicas. A gente nem é de Minas! Quando uma galera que a gente não conhece canta Deck Rock, é uma coisa que mexe muito comigo. Outro show que eu tenho na memória foi um show do começo desse ano, nosso primeiro show no Cervejazul que a gente tocou muito e tinha muita gente nova vendo a gente.

Ricardo: Gostaria de citar uma pelo fato inusitado, que foi o Show no PlayCenter. Não foi um show cheio, mas foi inusitado. Acho que pelo grau de “diferente”. Outro show que eu cito foi um em que a gente tocou na rua chamado “Arraial do Amor” (risos). Tinha um palco enorme no meio da rua e era uma coisa que nós não esperávamos nunca.

A gente não se preocupa em conseguir
uma gravadora. Nossa cabeça
não está nisso

● Hoje vocês estão sem gravadora. O que fariam se uma major oferecesse um contrato?
Ricardo: Eu duvido muito que isso aconteça. Acho que estamos em um momento da música que caminha mais para a independência do que para vínculos com gravadoras. Então, é claro que a gente não descarta nada. Se for uma coisa boa para o nosso projeto, a gente vai analisar.

Ygor: Acho que se uma gravadora oferece um contrato para você é porque você já consegue se manter sozinho. Acredito que vínculo com gravadora hoje não é viável. Como produtor musical, acho que se uma banda desperta interesse em um grande estúdio, como o Midas por exemplo, é porque chegou a um ponto em que consegue fazer seu trabalho sozinha. É claro que uma gravadora tira esse peso da gente, de trabalhar muito, mas se a gente souber trabalhar, a gente consegue fazer sozinho. Por exemplo, a Marisa Monte é uma das maiores artistas e cantoras do Brasil, e ela sempre cuidou da própria carreira.

Cescon: Acho que o cenário musical hoje é totalmente voltado para a independência mesmo. A gente realmente não se preocupa em conseguir uma gravadora. Nossa cabeça não está nisso.

Ricardo: Não é algo com que a gente se preocupa, não. A gente se preocupa em fazer som de qualidade.

PH: Acho que existem tendências. Cada época tem seu estilo predominante. Então por mais que agora as gravadoras estejam voltadas para um estilo, sempre vai ter uma cena independente que não depende do estilo. Uma hora, a indústria cultural vai mudar de estilo. É cíclico.

● Vocês costumam organizar eventos com outras bandas independentes em bares e casas de shows, como o “Rockambole”. Qual a importância dessa troca entre as bandas?
Ricardo: É primordial. Acho que uma cena só sobrevive com união de pessoas com a mesma visão de música. Acho que o objetivo dessa união é esse: fortalecer a cena. Somos muito mais fortes quando estamos juntos. Não tem como ser diferente.

Ygor: O Rockambole virou, praticamente, um filho da Deck Rock. A gente cuida com tanto carinho como cuida da própria banda. Acho que ele vai trazer muita novidade. O Rockambole busca essa união entre músicos, bandas e casas de show. O objetivo é juntar toda essa galera do mundo independente. O que vemos hoje é um canibalismo entre bandas; a gente não quer isso. A gente quer que todo mundo se ajude e que, juntos, possamos construir uma cena forte.

● Com 20 mil curtidas no perfil da banda no Facebook, como gerenciam a página?
PH: Acho que o momento da banda que mais conseguimos curtidas era quando a gente seguia uma agenda de posts. Tinha o post de quinta, o Deck Rock indica. A gente fazia um trabalho mais focado na página. Hoje a gente ainda consegue novas curtidas, mas em um volume menor. Mesmo assim, toda semana tem, pelo menos, um post. Costumamos interagir com todo mundo que comenta algo na página. A gente depende desse carinho do público. Todos os comentários que aparecem a gente curte, inclusive os negativos.

O que acontece é que hoje, para ser
independente, a gente não é só músico.
A gente é publicitário, marketeiro, designer, empresário.

Giovani: O legal da página do Facebook é que ela é um grande filtro. Quando a gente fazia esse trabalho mais elaborado, a gente conseguia perceber que tipo de post recebia mais curtidas e mais compartilhamentos – e perceber em que a gente investe em patrocínio. É legal também quando alguém de outro país manda mensagem falando que curte o nosso som. Já recebemos também mensagens de outros estados, como Rondônia e Rio de Janeiro, pedindo nossos shows. O Facebook aproxima a gente dos nossos fãs e é muito bom isso.

PH: Todo ano, em datas especiais, a gente faz vídeos. Dias das mães, natal. Lançamos, no dia das mães deste ano, um clipe com a participação das nossas mães. É um conteúdo específico. Algo que a gente faz para a página, para as pessoas que curtem a gente. No youtube, a gente é fraco – a gente não investe nele. Nosso forte é o Facebook.

Ygor: O que acontece é que hoje, para ser uma banda independente, a gente não é só músico. A gente é publicitário, marketeiro, designer, empresário.

Cescon: É. E a gente ainda tem que estudar, trabalhar, viver, namorar.

Ygor: É complicado. A gente tem uma vida atribulada.

● Vocês se dedicam totalmente a banda ou têm outras ocupações?
Ricardo: A gente não vive de música. Eu sou fisioterapeuta e ganho dinheiro com a fisioterapia.

Cescon: Atualmente, estou desempregado. Faço faculdade e trabalho com design.

Giovani: Estou no quarto semestre da faculdade de economia. Trabalhei muito tempo no setor financeiro da distribuidora da minha família, mas hoje estou desempregado também.

PH: Comecei a fazer faculdade de engenharia, mas nem terminei o primeiro semestre. No momento, dou aula de canto. Eu sou o mais novo. Sempre fui bancado pelos meus pais, então é a primeira vez que tenho um dinheiro meu – o que é muito bom. Comecei a me ocupar com alguma coisa meio tarde, mas que bom que foi com a música que eu me ocupei. Saí da engenharia, mas vou fazer outro curso.

Ygor: Eu faço curso de produção musical e trabalho em uma universidade.

● Hoje, qual o maior sonho de vocês como banda?
Ygor: Eu queria gravar um CD com o Paul McCartney (risos)

Ricardo: Eu queria fazer uma turnê internacional. Seria sensacional.

Giovani: Meu maior sonho, como banda, é receber um prêmio de melhor CD. Um Grammy Latino seria incrível. Ser reconhecido mundialmente seria muito bacana.

Cescon: O meu é conseguir viver de música. Eu amo o design também. Gosto de fazer as coisas por prazer. Se não existisse dinheiro, seria ótimo.

PH: Sempre tive meu sonho muito claro na minha cabeça: eu em cima do palco e a galera cantando minha música lá embaixo. Não importa quantas pessoas; um público razoável que me emocione lá de cima. Também queria conseguir me sustentar só com a banda. Viver de música.

 

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