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De palavra em palavra

Poema visual de Edgard Braga: viagem pelo léxico

Poema visual de Edgard Braga: viagem pelo léxico

 

O cronista declara sua paixão pelos dicionários e dá a dica:
há muitos deles na internet, boa parte de consulta gratuita

Por Carlos Machado*

Confesso a vocês que não sei viver sem dicionários. E, ao contrário do que se pode pensar, noto que a era digital só reforçou essa velha compulsão léxica. Antes, para sustentar esse hábito, era preciso reservar uns bons palmos de estante para ter vários dicionários de português e ainda alguns de outras línguas.

A hora da consulta era também um tanto complicada. Dicionários bons são pesados e ocupam espaço na mesa. Dois ou três já começam a atravancar todo o ambiente. Além disso, a gente tende a querer deixá-los abertos na página de determinada palavra.

Então surgiram os dicionários eletrônicos, incomparável mão na roda para quem se dedica ao ofício da escrita. É possível ter vocabulários instalados no computador e ainda consultar vários outros online, não somente em português, mas também em diversos outros idiomas.

Atualmente, tenho instalados em meu computador o Aurélio e o Houaiss, que considero obrigatórios. São os títulos que a maioria dos brasileiros tem em casa, em papel ou em algum formato digital. Tenho ainda instalado o Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa (VOLP), em três formatos: como aplicativo para Windows (pós-versão 8); como um link para o site da Academia Brasileira de Letras, dona do VOLP, no browser; e ainda como app no iPad.

É interessante notar que o VOLP apenas lista palavras com a ortografia oficial da língua. Cada verbete contém somente o termo e sua classificação gramatical (exemplo: poesia, s.f.), sem lista de acepções, sinônimos, antônimos ou qualquer outra informação.

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Na internet, costumo consultar ainda o excelente Dicionário Aulete Digital, o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa, de Portugal, e também o Dicionário Michaelis. Há ainda outros menos conhecidos. A propósito, se você usar qualquer mecanismo de busca e digitar “dicionário”, vai encontrar uma boa lista de fontes para consulta vocabular, incluindo todos os nomes citados aqui e vários outros.

Então, o imenso mundo das palavras está de páginas e verbetes abertos a quem pretenda nele se aventurar.

Os menos antenados talvez perguntem: para que consultar tantos dicionários? Um só não bastaria? Não. Há palavras que se encontram em uns e não em outros. Ou, se não for o caso de palavras, pode ser o de acepções ou locuções. Às vezes, uma palavra tem vários significados, mas alguns léxicos não registram exatamente o significado que se encaixa no texto que lhe causou a dúvida. Ou então você encontra, por exemplo, “calcanhar”, porém não a locução “calcanhar de judas”, que é outra coisa bem diferente: lugar distante, cafundó ou, coerentemente, “onde Judas perdeu as botas”. Aliás, esse calcanhar aí não passa de um substituto bem-comportado para outra parte do corpo… A linguagem popular tem suas artimanhas.

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Se antes eu já cultivava o hábito de consultar dicionários, agora — depois dessa mal explicada, não discutida e mal-ajambrada reforma ortográfica  — consulto-os ainda mais. (Acabei de recorrer ao VOLP quanto ao hífen nas três expressões que usei acima para desancar a reforma.)

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Tenho uma história pessoal a respeito de dicionários que se passou nos já longínquos anos 60. Quando comecei a ler Carlos Drummond de Andrade, consumi bom tempo para decifrar o sonetilho “Áporo”, do livro A rosa do povo (1945).

Primeiro, eu não fazia a menor ideia do que significa o próprio título do poema. Depois, ia aos dicionários e só encontrava a acepção básica (“problema de solução impossível”) e a origem da palavra, que vem do grego aporos: sem poros, ou seja, sem passagem. Ficava a ideia de um beco sem saída, e só.

Até que um dia consultei, na biblioteca do colégio, o Dicionário Caldas Aulete, que era um livrão imenso. Lá encontrei o que me pareceu a chave para o poema. Além do problema impossível de resolver, o Aulete listava outras acepções da palavra. Áporo também é uma variedade de orquídeas e, ainda, um gênero de insetos cavadores. E Drummond, inteligentemente, incorporou tudo isso ao soneto. Ou melhor: fez disso um soneto.

Pronto, acendeu-se a luz! Vamos ao poema:

Um inseto cava / cava sem alarme / perfurando a terra / sem achar escape. Até aqui, aparecem dois áporos: o inseto cavador e o beco sem saída. Segue o soneto: Que fazer, exausto, / em país bloqueado, / enlace de noite / raiz e minério?

No segundo quarteto, vem apenas um comentário sobre a situação do inseto. Mas não só: escrito nos primeiros anos 1940, esse “país bloqueado” e subterrâneo (noite e raiz) também parece ser o infeliz Brasil da ditadura do Estado do Novo. E, portanto, o inseto só pode ser o povo, procurando desesperadamente a liberdade, uma saída. Não custa lembrar que, para completar o clima soturno, na Europa explodiam os bombardeios da Segunda Guerra Mundial. (Desnecessário dizer que, na época, esses aspectos histórico-políticos estavam fora de minha compreensão.)

Continuemos a leitura, até o final.

Eis que o labirinto / (oh razão, mistério) / presto se desata: // em verde, sozinha, / antieuclidiana, / uma orquídea forma-se.

Maravilha! À luz do dicionário, juntemos os pedaços da narrativa: o áporo-inseto, preso num áporo-problema-sem-solução, cava inutilmente embaixo da terra. De repente, numa incrível metamorfose, o inseto irrompe livre, convertido em áporo-orquídea.

Não preciso dizer que fiquei fascinado. Drummond, num momento genial, brincou com as acepções da palavra áporo! A chave para o enigma está no título do poema. E, claro, no dicionário.

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Também aprecio muito zanzar sem rumo nas páginas no dicionário. Numa dessas explorações, descobri que existe brequefeste, um aportuguesamento do inglês breakfast, o desjejum, ou café da manhã. Confira no Aurélio ou no Houaiss. Em outra perambulação, desencavei o porquê de vaga-lume ter hífen. Eu me perguntava: qual a razão desse hífen, se essa não é uma palavra formada por verbo + substantivo, como beija-flor, quebra-mar, para-raios?

Na verdade, vaga-lume é, sim, uma palavra desse tipo. Mas, por eufemismo, alterou-se o termo original, que — com licença da má palavra — é caga-lume. Fica então explicada a razão do hífen. Descobri isso também no Aulete.

Divirto-me ainda ao perceber a origem de certas palavras. Não conheço — ou, se conheço, não sou capaz de identificar — a flor miosótis. Mas descobri que seu nome vem do grego myosotis, ou seja, “orelha de rato”. Olhei fotos na internet e não achei a flor parecida com isso. É possível que a semelhança com as orelhas do roedor se refira à folha da planta.

Contudo, a mais remota lembrança que me ficou dos dicionários foi uma coisa engraçada. Com 11, 12 anos, garoto do interior, li em algum lugar a palavra “burocracia”. Procurei-a num dicionário. Em vez de outro termo correspondente, um só, encontrei uma longa explicação, que me deixou mais sem rumo do que antes da consulta.

Levou algum tempo para que eu descobrisse o que é burocracia. Mas aí entramos em outra história, e a culpa não foi do dicionário.

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No reino das palavras

Alguns dicionários gratuitos online ou na forma de aplicativos

 

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*Carlos Machado é jornalista, poeta e editor do Alguma Poesia

 

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