Spotify é um câncer, diz editor do selo TBTCI - Kultme Alternativa Cultural

Spotify é um câncer, diz editor do selo TBTCI

tbtci

 

Por Diego de Oliveira*

Renato Malizia e seu The Blog That Celebrates Itself são referência desde 2008 para quem está inteirado do que acontece no underground da música. São centenas de entrevistas, lançamentos através do seu selo e um programa de rádio semanal com o melhor do shoegaze, phychedelic rock, post-punk e outras tinturas dos submundos dos bons sons (como autodefine seu trabalho numa homenagem ao grande Fábio Massari). Tivemos uma conversa rápida com ele sobre sua jornada e o mundo da música (aviso, o cara não tem papas na língua e não poupa ninguém).

The Blog that Celebrates Itself (ou TBTCI, para os mais chegados) é uma força no cenário underground nacional. O que começou como blog despretensioso sobre música virou um canal para entrevistas, programa de rádio e selo com lançamentos constantes. O que te motivou a começar essa jornada e a que atribui o sucesso do blog?
Antes de mais nada, obrigado, Diego, pelo espaço – orgulhoso em poder conversar com os leitores sobre o TBTCI. Exatamente como você colocou, tudo começou há quase 10 anos. O TBTCI na verdade tinha outro nome. Chama-se “Life is Killing My Rock and Roll”, homenagem direta a uma banda que foi fundamental nessa jornada, os islandeses do Singapore Sling. Eu estava meio de saco cheio da geração anos 2000, pra mim facilmente uma década onde só o underground do underground teve realmente algo que prestasse – de resto, melhor deixar pra lá. Pois então, começou como um diário pessoal, coisas que eu escutava e por quê eu escutava. Na real, nem imaginava que alguém fosse ler, mesmo porque eu fazia pra mim.

Esse foi o lugar de partida.
Isso, o ponto inicial do que virou o TBTCI. Era puramente focado em entrevistas com bandas novas e algumas clássicas das quais gosto. Foi mais ou menos na época do My Space, quando conheci os ingleses do 93 Million Miles From The Sun e a gravadora deles na época, a Northern Sound. O dono, Scott Causer, me achou legal e tal e me mandou todo o catálogo da gravadora. Sugeriu que eu fizesse entrevistas com as bandas do cast dele e, daí em diante, meu amigo, são mais de duas mil entrevistas. Imagina, mais de duas mil novas bandas que têm realmente algo a dizer. Mesmo assim não sei mensurar o que você coloca como “sucesso”. Basicamente o TBTCI é conhecido lá fora mas aqui no país, sei lá, todos sabem da existência, óbvio, mas é algo bem de nicho, mesmo porque não sou daqueles caras de ficar fazendo média com fulano ou sicrano, saca? Coloco no site quem gosto e quem me agrada, simples assim, mas sei que existe um respeito sobre o que é feito. E a bem da verdade prefiro assim, sem maiores vínculos.

Não sou de ficar fazendo média.
Prefiro assim, sem maiores vínculos

O selo tem grande número de lançamentos, entre tributos, coletâneas e trabalhos de artistas nacionais e internacionais. Entre eles, tem algo de que você mais se orgulhou em lançar?
Logicamente tenho um amor especial pela trilogia do Robsongs, que foi onde tudo começou. Ele sabe o quão fã sou dele, e em tudo que veio depois uso a mesma lógica do site: faço o que gosto, lanço o que gosto e, das bandas autorais, sejam nacionais ou gringas, amo todas sem exceção. Fazer a prensagem do EP de estreia da Lur Lur foi genial – imagina, uma banda portuguesa ter tido tudo feito aqui no Brasil é algo inusitado -, sem contar bandas como o Blackpool Astronomy, de Seattle, ou o Tone Rodent, de St Louis, que pra mim são geniais. Enfim, porra!, The Us, Ceus de Abril, Bela Infanta, todos merecem muito mais em termos de exposição. Quem sabe um dia possam ser reconhecidos realmente.

E para o futuro, o que reserva o TBTCI? Amamos spoilers!
Bom, algumas coisas são óbvias. Enquanto respondo a você estou, ao mesmo tempo, ordenando o Tributo ao Slowdive, lançamento do dia 14/2, e já há mais dois projetos engatilhados pra fevereiro. Um já sabido, que é uma nova compilação somente com bandas novas e seus sons próprios, chamada New Adventures of TBTCI (sai dia 24/2). O outro se chama Who Covers Who. Serão splits mensais sempre com duas bandas, uma coverizando a outra. Isso é inspirado numa coleção de 7″ da gravadora Clawfist, lá dos anos 90. E depois disso, bem, depois disso sugiro que se você está de saco cheio de ouvir as mesmas coisas, que leia e ouça o que o TBTCI humildemente sugere. Isso se você conseguir me acompanhar! Hahahhahahaha!

O mundo da música vive momentos difíceis desde que abraçou o universo digital. Grandes dinossauros da indústria já fecharam as portas e os que sobrevivem tentam descobrir qual a fórmula mágica para continuar. Como encara essa situação e que aconselha aos pequenos selos ou bandas para encarar esses tempos?
Atualmente, na minha opinião, uma banda precisa sempre estar com o nome em voga. Sabe, tem que produzir, não adianta achar que pode ser um My Bloody Valentine e ficar anos sem lançar nada. Meu amigo, se fizer isso a banda cairá no ostracismo e vai ser engolida por tudo e todos. Os novos tempos são cruéis. Andy Warhol errou na previsão dele de que no futuro todos teriam 15 minutos de fama. Hoje, cara, neguinho tem 3, 5 minutos de fama e é engolido pela próxima música, saca, por isso ressalto – se quer ter uma banda, produza, seja prolixo, esse é um ponto global na minha opinião.

Se quer fazer rock, tem de focar
no mercado global.
Brasileiro não consome música

No Brasil também?
Se formos esmiuçar aqui no nosso país, eu diria que somos mambembes, todos, com raríssimas exceções. Primeiro porque se você quer fazer rock, seja qual for a vertente, punk, hardcore, pospunk, shoegaze, psychedelic etc etc, você deve obrigatoriamente focar no mercado global. Não adianta querer e achar que aqui no Brasil você vai se dar bem. Cara, sou cético nesse ponto. Duvido, duvido mesmo, que quem trabalha com música se dará bem pensando no mercado interno, primeiro porque brasileiro não consome música. Cara, já organizei festivais, fui sócio de casa noturna, e o público NÃO consome.

Malizia: sem papas na língua

Malizia: sem papas na língua

O que significa, pra você, consumir música?
Consumir significa ir a shows, comprar o produto etc etc, e brasileiro quer ser esperto. Estou generalizando, ok, mas neguinho quer ser vipado, neguinho quer cd/vinil/etc de presente porque acha que sendo seu amigo ou conhecido você tem obrigação de dar pra ele, saca, e isso fode tudo. Daí podemos passar pras casas, nas quais são raros os casos em que valorizam as bandas. Mesmo porque muitas bandas tocam por troca de meia dúzia de cervejas e uns baseados, sabe. Resumindo, comparado a países como Argentina, Peru e Chile, por exemplo, estamos engatinhando. Por isso eu digo, tem que focar no mercado global. Mérito de gente como Boogarins, Travelling Wave, Wry e Tamborines, entre outros que meteram as caras e deram passos maiores. O caminho, a meu ver, é esse.

E o uso de ferramentas como Spotity?
Ah, esse é o detalhe: eu considero o Spotify um câncer! Hahhahaha!, adoro dizer isso!

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*Diego de Oliveira é músico e integrante do Cubüs (www.cubusonline.com | www.facebook.com/cubus).

 

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