Hoje é 4 do mês. Amanhã é 15. Parece estranho? - Kultme Alternativa Cultural

Hoje é 4 do mês. Amanhã é 15. Parece estranho?

Cronos, deus de curvo pensar: que bagunça!

Cronos, deus de curvo pensar: que confusão!

 

Por Carlos Machado*

Na virada de sábado para domingo desta semana termina o horário de verão de 2016/2017. Sempre que testemunho um desses pequenos solavancos introduzidos no calendário, penso em minha mãe, que deixava de lado o horário de verão e teimava em fazer suas tarefas no que ela chamava de “horário de Deus”. O outro, com uma hora adiante, seria o “horário dos homens”.

Com o mais profundo respeito à memória de minha mãe, discordo dela: a verdade é que todos os horários são humanos. A gente se molda tanto à sucessão das horas, dias, meses, anos que até se esquece do quanto há de artificial, de convenção humana, no calendário.

Sem a menor dúvida, o ponto de partida para se fazer um calendário é a observação da natureza. Afinal, há processos que se repetem indefinidamente: todos os dias o sol nasce e se põe. Da mesma forma, em período similar a um mês, a lua aparece, brilha em diversos formatos e por algum tempo some no breu. E ainda, de modo similar, as estações se repetem.

Tudo bem. Mas por que o dia tem 24 horas, e não 20 ou 27? Por que a hora tem 60 minutos, e não 80 ou 50? Por que os meses não têm, todos, o mesmo número de dias? Criações humanas. Tudo isso não passa de convenções.

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Dia de 10 horas, ano de 360 dias.
E com 5 feriados fora do tempo

Aliás, na Revolução Francesa, instituiu-se um calendário decimal que passou a valer a partir de 1792. Era tudo diferente: cada dia tinha 10 horas, cada hora 100 minutos e cada minuto, 100 segundos. O mês dividia-se em três períodos de 10 dias. O ano continuaria a ter 12 meses – mas perfazendo um total de 360 dias. Os cinco dias restantes eram dedicados aos feriados republicanos. Mudaram também os nomes dos dias (primidi, duodi etc., ou seja, primeiro dia, segundo dia até o décimo) e dos meses (por exemplo: Brumário, Nivoso, Pluvioso, Ventoso etc. — sempre com referência às características atmosféricas).

No final das contas, que foram breves, esse calendário foi abolido em 1805. Durou pouco mais de dez anos. A despeito da impetuosidade dos revolucionários, a força da tradição se sobrepôs à racionalidade. A tradição e, claro, a religião. A semana de sete dias, por exemplo, não se pode esquecer, é algo fincado no primeiro livro da Bíblia. E aí se juntam judeus, católicos, ortodoxos e protestantes.

Retorno à minha mãe: de fato, não é fácil mexer com o “horário de Deus”.

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Uma noite você vai dormir e
acorda 10 dias depois.
Aconteceu mesmo

Mesmo assim, faço aqui uma pergunta ao distinto leitor, à atenta leitora. Admita que hoje é 4 de outubro. Você vai dormir e, ao acordar amanhã, a data é 15 de outubro! O que você faria diante algo assim? Não estou brincando. Isso aconteceu em 1582, na mudança do calendário juliano para o calendário gregoriano, o atual.

Calma, eu explico. O calendário juliano, como o nome sugere, vinha dos tempos de Júlio César, imperador romano. O ano 1 — olhe aí a religião de novo — admite-se que seja o do nascimento de Cristo. Esse calendário era praticamente igual ao atual, com uma sutil diferença. No juliano, o ano tem 365 dias e 6 horas exatas. Assim, em cada ano sobram essas 6 horas, que ficam acumuladas. Ao final do quarto ano (6 vezes 4 igual a 24), tem-se mais um dia, o dia bissexto, que se convencionou acrescentar ao mês de fevereiro. Perfeito.

Mas, no século XVI, quando o calendário já estava em uso havia quase 1600 anos, a experiência popular começou a registrar eventos fora do que se considerava padrão. As pessoas estavam acostumadas, por exemplo, a associar eventos de sua vida — o plantio, a colheita etc. — a fenômenos atmosféricos, como chuva, seca, neve. Mas nessa época as coisas não estavam batendo.

No Ocidente, todo o saber — e quase todo o poder — pertencia então à Igreja. O estranhamento popular chegou à Igreja. O papa Gregório XIII montou uma comissão de sábios para estudar o problema. Os cientistas de Roma verificaram que na verdade o ano não tem 365 dias e 6 horas, mas um pouco menos. Em vez de 6 horas redondas, são 5 horas, 49 minutos e 12 segundos. Ou seja, o ano juliano tinha quase 11 minutos a mais do que o ano real.

E daí? Em apenas um ano, dez ou cem, essa diferença minúscula passa completamente despercebida. Mas já era 1582 e o calendário juliano havia acumulado um erro de 10 dias! Segundo os cientistas, o velho calendário introduzia 3 dias a mais (não existentes) em cada 400 anos. Portanto, era preciso acertar o passo do calendário.

Muita bagunça? O Papa emite
uma bula mudando o tempo.
Pronto

Qual foi a saída? O papa emitiu uma bula mudando a forma de medir o tempo. Assim, o calendário gregoriano foi adotado oficialmente, em todo o mundo sob a influência da Igreja Católica, naquele 4 de outubro de 1582, dia ao qual se seguiu 15 de outubro.

A diferença entre o calendário juliano e o gregoriano reside exclusivamente no cálculo do ano bissexto. No juliano, de quatro em quatro anos, havia um 29 de fevereiro. Em outras palavras, todo ano múltiplo de 4 era bissexto. No calendário oficializado pelo papa Gregório, a aritmética ficou um pouquinho mais complicada. Agora, para ser bissexto, o ano tem de ser múltiplo de 4 e também múltiplo de 100.

Desse modo, começando em 1582, 1600 foi bissexto (= 4 x 4 x 100). Contudo, 1700, 1800 e 1900 não foram. São múltiplos de 100, mas não de 4. Na época atual, o ano 2000 foi bissexto, mas 2100, 2200 e 2300, não. Só 2400 — se o calendário existir até lá — será bissexto.

Você percebeu: em cada 400 anos, o calendário gregoriano subtrai três dias do calendário juliano, corrigindo o problema que vinha da época dos Césares.

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O calendário gregoriano não foi adotado uniformemente no mundo. No Brasil e em todos os países sob a influência da Igreja Romana, a mudança se deu em 1582. Mas a Grã-Bretanha e suas colônias, então já desvinculadas religiosamente de Roma, só aderiram em 1752. Ao longo do tempo, novos países foram aderindo. A Rússia só entrou na dança em 1918. E é por isso que a revolução de outubro de 1917 (pelo calendário juliano) ocorreu na verdade em novembro (no gregoriano). Um dos últimos países a entrar na roda gregoriana foi a República Popular da China, em 1949. Em cada um desses casos, a mudança de calendário implicou um salto maior em número de dias em relação ao sistema anterior.

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Enfim, são convenções. Portanto, uma hora a mais, uma hora a menos, no entra e sai do horário de verão — isso não é nada diante de uma mudança de calendário.
A propósito: o fim do horário de verão, a 19 de fevereiro, ocorrerá no dia 1 de Ventoso de 2017, no calendário da Revolução Francesa.

*Carlos Machado é jornalista, poeta e editor do site Alguma Poesia

 


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