Pedindo ‘mais gentileza’, livro de Leusa Araujo é manual de sobrevivência na selva social - Kultme

Pedindo ‘mais gentileza’, livro de Leusa Araujo é manual de sobrevivência na selva social

Cartum do mexicano Darío Castillejos, cedido para novo livro de Leusa

Cartum do mexicano Darío Castillejos, cedido para novo livro de Leusa

 

Leusa Araujo estreou na literatura em 1994. Entre suas principais obras estão Tatuagem, Piercing e outras mensagens do corpo (CosacNaify, 2010) – considerado altamente recomendável pela Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLJ) na categoria informativo -, O Livro do Cabelo, editado pela Leya, que é uma interessante pesquisa sobre a história social do cabelo, além dos juvenis Ordem, Sem Lugar, Sem Rir, Sem Falar (Scipione, 2010) e A cabeleira de Berenice (SM 2006), indicado para o Prêmio Jabuti, em 2007, na categoria “Melhor Juvenil”. Recentemente foi uma das organizadoras do volume Rubem Braga: O lavrador de Ipanema – crônicas de amor à natureza (Record, 2013), em parceria com Januária Alves. O livro foi selecionado para a Feira de Bologna de 2014. Esse roteiro criativo de mais de 20 anos levou Leusa a um desafio quase ‘natural’, mas ainda assim surpreendente, de falar sobre boas maneiras para alunos do ensino fundamental  – algo que vale ainda para a selva social em que todos vivemos. As respostas, e as muitas indagações da autora a respeito, estão no livro Convivendo em Grupo. Almanaque de Sobrevivência em Sociedadeem lançamento pela Editora Moderna. 

Kultme – Recentemente, o ex-ministro e professor Renato Janine Ribeiro reclamou, na sua página do Facebook, da falta de educação de muitas pessoas que haviam mandado mensagens a ele. E perguntou: “seus pais não lhes ensinaram bons modos? A escola não conseguiu formá-los para um mínimo de boas maneiras?”. Seu novo livro, “Convivendo em Grupo”, é um manual de boas maneiras?
Leusa Araujo – De fato, ao ler o post, não pude deixar de ter uma enorme surpresa quando o professor disse ter lido o livro de etiqueta do Marcelino de Carvalho quando era criança! Ele também é autor de “A Etiqueta no Antigo Regime” – um dos textos fundamentais para entender essa história de “boas maneiras” para as crianças e que, coincidentemente, usei como fonte. Foi por isso que me atrevi a comentar o post, avisando-o sobre a existência do meu livro, que será apresentado dia 10 de março, no Instituto Cervantes, das 15 às 17 horas, para professores e educadores do ensino fundamental. O livro não pretende ser um manual completo. É uma pena, não houve espaço para isso. Mas quer botar na mesa essa enorme necessidade de revisão dos códigos de convivência em grupo – especialmente na escola.

O que levou você – que é escritora juvenil e pesquisadora – a um livro que tem um pouco de “autoajuda”? Ensina a se comportar nas filas, por exemplo…
O convite partiu da Januária Alves, coordenadora da coleção Informação e Diálogo da Editora Moderna. A coleção é paradidática, com vocação para sala-de-aula, bem no estilo almanaque. Ou seja, muitos assuntos tratados de maneira lúdica, com links para filmes, músicas, e que permitam ao professor e ao aluno uma leitura singular. Sou filha e neta de professoras de ensino básico. Minha filha, Letícia Araujo, é professora e com muita experiência tanto com meninos de periferia, quanto com os da elite. Então, topou fazer a pesquisa para o livro comigo. Trabalhamos juntas mais de um ano buscando assuntos que, de fato, ajudassem a molecada a entender que é uma questão de sobrevivência social, aceitar a existência desse grande monstro chamado O OUTRO!

Você diz no livro: “é preciso sair do próprio umbigo e olhar o mundo com vontade de viver junto com os outros”. Acha mesmo possível fazer isso hoje, com tanto estímulo à expressão individual, ostentação etc?
Sim. Parti da hipótese de que há um caminho para se viver melhor em grupo. Usando um artifício chamado “transporte imaginário” – que nada mais é do que se colocar no lugar do Outro. A literatura faz isso por meio dos personagens. Na escola, é preciso ter esse estímulo constante à empatia. Você tá zoando seu colega? Ah! Acha engraçado ele ter apelido de “bolão”? Então como é que você reagiria se te chamassem de pirulito? A gente precisa conversar essas coisas abertamente com eles. Não dá pra discutir disciplina hoje sem falar, por exemplo, da escola do passado…

A escola atual é muito diferente?
É mais democrática, por mais que critiquemos os seus limites. O aluno precisa saber que nada é mais temível do que a “palmatória”, precisa saber que a Inglaterra só aboliu essa “torturinha” em 1989. E, pior: que um senador americano defendeu seu uso em 2011! O objetivo não é aterrorizar. Claro que não. Mas é mostrar que o aluno precisa se apropriar do espaço de diálogo aberto na escola para transformar esse ambiente num lugar de trabalho, sério, de conhecimento – como dizia o Paulo Freire. Ele precisa se dar conta de que passa a maior parte da sua vida em grupo, especialmente neste grupo escolar…

E fora da escola?
Não dá para viver em qualquer grupo na base do “sincericídio”, do “pronto falei” – como tem sido incentivado nos últimos anos. O que muitos julgam ser “falsidade” ou “máscara social” na verdade chama-se “civilidade”. E nas palavras do sociólogo Richard Sennet (tá no livro): “A civilidade existe quando uma pessoa não se torna um fardo para os outros”. O que o professor Renato Janine Ribeiro estava pedindo era por bons modos na discussão. Concordo. Mais gentileza, por favor.

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