O dia em que Fernando Brant me mandou e-mail - Kultme

O dia em que Fernando Brant me mandou e-mail

Fernando Brant: o elogio ao simples

Fernando Brant: o elogio ao simples

Por Carlos Machado *

Este é um relato que envolve amizades e, principalmente, põe em destaque a sensibilidade artística de dois poetas que perdemos recentemente: os mineiros Donizete Galvão, morto em 2014, e Fernando Brant, no mês passado.

Para começar, devo dizer que jamais encontrei Fernando Brant. Não fui nem mesmo seu amigo virtual. Somente uma agradável sucessão de acasos é que me levaria a receber um e-mail do letrista de “Travessia”, “Ponta de Areia”, “Maria Maria” e tantos outros clássicos da música brasileira.

Um dia, em agosto de 2013, abri a edição de maio/junho do jornal Suplemento Literário de Minas Gerais. Lá estava o Fernando Brant, entrevistado pelo jornalista João Pombo Barile, um amigo e colega de ofício. Li a entrevista, com muito gosto. O papo de Brant, muito natural, sem nenhuma afetação, envolvia o leitor.

Brant: Inventei um tipo
de documento,
o Termo de Bem Viver

Mas o que realmente me encheu os olhos foi um caso que ele contou, lembrando os tempos de quando, ainda estudante, trabalhara com o pai, juiz, no Juizado de Menores de Igarapé, município da região metropolitana de Belo Horizonte. Transcrevo a pergunta de Barile e a resposta de Brant:

Você gosta de repetir uma frase que eu acho muito boa: você diz que “a beleza é simples”. É isso?
É isso mesmo. Mas eu também vivi outras histórias quando trabalhava com meu pai. Eu lembro, por exemplo, de um caso engraçado com um casal de Igarapé, que um dia apareceu lá no Juizado. O homem contou que trabalhava na roça e a sua esposa ficava em casa sozinha. Um dia, passou um caminhoneiro, enrolou a mulher, e acabou transando com ela. Aí esse senhor queria saber o que teria que fazer: ele tinha que se separar dela? Era obrigado a fazer alguma coisa? Quer dizer: um negócio que não tem nada que ver com o juizado de menores. Um problema do casal, né? E aí eu fiquei lá, conversando com eles, e percebi que ele não estava querendo coisa nenhuma. Ele só estava querendo um termo legal para poder voltar pra casa com a mulher dele na boa. Então eu inventei um tipo de documento: o termo de bem viver. Eles então assinaram com testemunha e tal e foram embora. Quer dizer, uma coisa bacana, né? O cara não tinha maldade nenhuma. Ele tinha perdoado a mulher dele.

Achei a história excelente, e fiquei impressionado com a perspicácia do jovem Brant ao achar uma solução simples e solidária para o caso. O “termo de bem-viver” é ótimo, até no nome.

Quem tem nas mãos uma história dessas não pode se dar o direito de saboreá-la sozinho. Copiei o trecho da entrevista e enviei-o ao poeta Donizete Galvão, meu amigo e ex-colega jornalista, e também a outros amigos comuns, além de pessoas fora de nosso grupo.

Donizete obviamente apreciou a narrativa de Brant e foi mais longe. Repassou-a a amigos prosadores, com uma recomendação assim: olhem aí, vocês, ficcionistas (Donizete só escrevia poesia), peguem esse mote e desenvolvam um conto.

Um dia o contista Mario Rui Feliciani
me manda um e-mail:
havia topado o desafio

Passou. Um dia, o contista e fotógrafo Mario Rui Feliciani me manda um e-mail dizendo que havia topado o desafio de Donizete e produzira um conto, “Na cômoda do missal”, que já estava publicado numa revista online. Fiquei, mais uma vez, empolgado ao ver como a “beleza simples” rendia frutos.

Resolvi, então, dar a notícia a Fernando Brant, por intermédio de seu entrevistador João Barile, que enviou ao compositor um e-mail compartilhado comigo. Brant quis saber se outros contistas haviam encarado o desafio de Donizete Galvão. Respondi que não, e aproveitei para apresentar a ele meu site Alguma Poesia e lembrar que ele era citado num dos meus textos, a propósito das diferenças entre letra de música e poesia. Brant costumava dizer que essas duas artes não são a mesma, mas pertencem à mesma família: são primas.

O sócio-fundador do Clube da Esquina me respondeu, gentil como imagino que sempre fosse: “Obrigado, Carlos Machado. Vou ao seu site. Um abraço. Fernando Brant”. Isso ― consulto aqui em meu programa de e-mail ― foi em abril de 2014. A essa altura, Donizete Galvão já havia nos deixado fazia cerca de três meses. Perguntei ao Mario Rui se o Doni tinha lido o conto que apadrinhara. Infelizmente, não.

Fica aqui este pequeno relato como uma homenagem à criatividade desses dois mineiros, dos quais nunca vamos nos esquecer. Semeadores de poemas e letras musicais tão profundamente humanos, Donizete Galvão (1955-2014) e Fernando Brant (1946-2015) não podem mesmo ser esquecidos.

Foto: Mario Rui FelicianiLinks

Leia o conto Na cômoda do missal, de Mario Rui Feliciani, publicado na revista online Pessoa

 

E aqui, a voz e poemas de Donizete Galvão:

 

Por fim, Fernando Brant, falando de seu tempo e sua arte:

***

* Carlos Machado é jornalista e poeta, autor do livro Tesoura Cega (2015)

 >> Aproveite para ler entrevista sobre poesia, seus limites e importância concedida por Carlos Machado ao Kultme:
http://kultme.com.br/kt/2014/12/01/o-que-nao-tem-traducao-entrevista-com-o-poeta-carlos-machado/

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