Poeta Carlos Machado lança 'Tesoura Cega'. Leia 3 poemas inéditos e entrevista com o autor - Kultme

Poeta Carlos Machado lança ‘Tesoura Cega’. Leia 3 poemas inéditos e entrevista com o autor

tesoura_cegaO poeta e jornalista Carlos Machado lançou em São Paulo nesta quarta-feira, 17 de junho, seu mais recente livro de poemas. Publicado pela Dobra Editorial, Tesoura Cega teve noite de autógrafos aberta a público na Casa das Rosas, na avenida Paulista.

Machado, que entre outras muitas atividades ligadas ao fazer poético publica há mais de dez anos o boletim poesia. net, selecionou três poemas de seu novo livro para você. Deleite-se com eles – e em seguida leia um rápido papo com o poeta, que explica o tom jocoso do segundo texto, Josué.

XEQUE-MATE

Quando menos se espera, já são horas.
A dama de espadas perde o gume
e o pássaro pousado vai embora.

Quando menos se espera, o que se anuncia
não é a sorte grande, a estrela Aldebarã
ou a sagração da primavera.
São tempos de abutre
e o coração, músculo bélico, fraqueja.

De repente, já é sábado,
há uns assuntos desagradáveis para resolver
e, sobre a pele confusa da alma,
uma densa crosta de óxido e desalento.

Quando menos se espera, o rei está em xeque,
e é dezembro.
Há uma complicação de trânsito
na avenida
uma artéria que não dá passagem.
Quando menos se espera, já é tarde.

JOSUÉ

se você estiver cansado
de si mesmo,
vá ao cartório civil
e troque seu nome para Josué

depois, com a nova certidão
no bolso, corra
desembestado pelas ruas
gritando: sol, para! sol, para!

isso não resolve sua dor
nem vai frear
o giro da Terra, mas
propicia um belo espetáculo

BAOBÁ

Vontade de fazer
uma coisa grande
de futuro imenso:
plantar um pé
de jacarandá
um baobá
e deixá-lo aí
para beijar
a cumeeira
dos séculos,
zombar de tudo
que é breve
e que, como nós,
se consome
no atrito das
horas, na
vertigem
incontrolável
das coisas miúdas.

 

Abre Aspas
O poeta fala sobre seu jocoso ‘Josué’.
Que, sim, é o mesmo do Velho Testamento

Que tom é esse em seu poema Josué?
Sou um ateu com estranhos conhecimentos bíblicos. E nunca fui crente, não. Explico. Quando moleque, era uma verdadeira traça. Lia o que tivesse na frente: livros, gibis e até fotonovelas. Tinha um tio da Igreja Batista. Como a Bíblia dele ficava dando sopa, eu a li de cabo a rabo. Como leitura, nada de religião. Depois, mantive o hábito. Leio até hoje.

É então um tom bíblico?
Não, o tom não – mas há uma referência bíblica nele. Curioso é que os críticos que leram o livro até agora não o perceberam ou, pelo menos, não a destacaram.

Quem é esse que tenta brecar o tempo?
O Josué da Bíblia foi uma espécie de sucessor de Moisés. Portanto, figura destacadíssima entre os hebreus. Aliás, um general.

Onde se localiza?
No Velho Testamento. Há um episódio, em Josué 10:13, em que a turma de Josué estava guerreando um inimigo, os amorreus. Os inimigos batiam em retirada e começava a cair a noite, o que favorecia a fuga. Então Josué, que tinha contato direto com Deus, virou-se e disse: “‘Sol, detém-te em Gibeom, e tu, lua, no vale de Aijalom.’ E o sol se deteve, e a lua parou, até que o povo se vingou de seus inimigos.” Bem, é daí que vem o Josué do poema sair gritando na rua: “sol, para! sol, para!”

Será que o Sol do Josué versão século 21 vai parar?
Acho que esse tipo de excepcionalidade dançou depois de Nicolau Copérnico. O Josué do poema é um sujeito de hoje que repete o procedimento do Josué da Bíblia, mandando o sol se deter. Esse é o lance: vai parar? Se quiser chamar o poema de jocoso, não me oponho.

(texto atualizado 18.6.15)

 

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