Passos de ternura. Um até breve ao poeta Donizete Galvão - Kultme

Passos de ternura. Um até breve ao poeta Donizete Galvão

O poeta e jornalista Carlos Machado (editor do poesia.net, o mais longevo periódico online brasileiro dedicado à poesia) compilou um pungente ‘até breve’ ao também poeta Donizete Galvão. No texto, Machado reúne depoimentos de amigos que – assim como ele – amavam Donizete e sua poesia única, imprescindível.

 

Por Carlos Machado *

Donizete Galvão morreu, precoce e injustamente, aos 58 anos no último 30 de janeiro. Donizete Galvão, autor de Azul Navalha (prêmio de autor revelação da Associação Paulista de Críticos de Arte e indicado ao Prêmio Jabuti), As Faces do Rio, Do Silêncio da Pedra, A Carne e o Tempo, Ruminações, Mundo Mudo e O Homem Inacabado (finalista do Prêmio Portugal Telecom e 2º colocado no Prêmio Brasília de Literatura), é um poeta de primeira grandeza, use-se a régua que for. Que o digam seus amigos:

 

• Humberto Werneck – São Paulo

UM ARTISTA DO CONVÍVIO
Tudo, daqui por diante, me fará lembrar de Donizete Galvão, bruscamente desaparecido na madrugada de quinta-feira passada, aos 58 anos de idade. A poesia, é claro, a um tempo delicada e forte, que ele destilou em livros ao longo de um quarto de século, sete magros porém substanciosos volumes a que volto sempre, e aos quais, a partir de agora, voltarei também pela falta que já me faz o autor.

Mas não é só a poesia que me fará lembrar de Donizete. Foi nisso que pensei quando, no velório, ao topar com dois, com seis, com dez ou mais amigos comuns, repassei a genealogia de minhas relações para constatar que a ele devo aquelas e outras tantas amizades, e seus desdobramentos. Pois o Doni, mineiro de Borda da Mata transplantado para São Paulo em meados dos anos 70, foi um tremendo agregador de afetos. Como esquecer os “sabadônis”, forrobodós que ele, ao lado da mulher, Ana Tereza, e dos filhos, Bruno e Anna Lívia, promovia em sábados tornados ainda mais especiais por prosa e mesa genuinamente mineiras?

Foi ali, na rua Anatalícia Ferreira da Silva (quem terá sido essa criatura, brincava eu numa reiterada sem-gracice, cujo prenome sugere desaniversários?), foi ali que, mesmo não sendo dos mais assíduos, conheci os romancistas Luiz Ruffato e Ricardo Lísias, e todo um time de poetas: Carlos Machado, Esio Macedo Ribeiro, Fabio Weintraub, Ruy Proença, Sérgio Alcides, Sônia Barros, Tarso de Melo. Foi também à sombra de Donizete Galvão que vi pela primeira vez a Eltânia André, o Ivan Marques, a Leusa Araujo, o Mario Rui Feliciani e o Ronaldo Cagiano. Faltou alguém? São tantos. Tinha, o Doni, ótimo faro para gente boa, e habilidade para combinar achados.

Melhor pôr sob reserva o “gente boa”, pois também eu fui, faz quase 20 anos, fagocitado pelo carinho nunca estridente desse garimpeiro de camaradagens. Já não poderei dizer a ele o quanto lhe fiquei devendo pela suave insistência com que bateu à minha porta, num instante em que o sofrimento ameaçava fazer de mim um ser inóspito.

Até aí nos conhecíamos de raspão, e o Donizete, com livro novo, Do Silêncio da Pedra, veio para perto. Não, não era um autor a mais em busca de mãozinha na divulgação. Dentro do exemplar que me enviou, este bilhete: “A rapaziada mineira (alguns não tão rapazes assim) continua desatinada. Um dos desatinos é insistir em publicar poesia. Não é uma coisa de louco? No caso dos mineiros, loucos mansos”.

Quando vi, lá estava eu, tão prosa, infiltrado por ele num debate em torno de poesia. Na saída, um disco de Nina Simone e um toque em versos despretensiosos: “A música é um ímã da poesia / Ora faz com que a gente se desespere / quando com nota pontiaguda nos fere / Ora da imperfeição humana nos isola / quando feito um bálsamo nos consola”. Daí em diante, ainda que sem grandes efusões (numa “não muito estouvada confraternização”, diria melhor Carlos Drummond), seguimos encontrados.

Ao menor pretexto, ou a pretexto algum, Donizete se fazia presente também com agrados sempre certeiros. A gravura de tiragem baixa de Amilcar de Castro (era ligadíssimo nas artes visuais) aqui nesta parede. Este exemplar de Lições de Abismo, de Gustavo Corção, na edição da Agir ilustrada por Oswaldo Goeldi. Um volume de 1914 sobre Mantegna. Poemas de Paul Celan. O soneto que ele, Donizete Galvão, me dedicou nas páginas de seu terceiro livro, A Carne e o Tempo, para o qual teve a temerária generosidade adicional de me pedir um texto de apresentação.

Nos últimos tempos, era mais por e-mail que a gente se falava, ou pelo Facebook, onde eu não perdia os agridoces comentários com que Doni, cético mas apaixonado, pontuava o nem sempre edificante andamento das coisas neste mundo. Houve um dia, não faz muito, em que o assunto sendo os rarefeitos encantos físicos da capital paulista, ele cravou: “A feiúra de São Paulo tem suas vantagens. Quando nos visitam, não temos muita coisa bonita pra mostrar. Então temos de conversar”.

Lamento informar aos visitantes que sem este tenaz artista do convívio o papo por aqui ficou mais pobre.

 

 Vera Lúcia de Oliveira – Perugia, Itália

O HOMEM INACABADO
           Para Donizete Galvão

o homem inacabado
é o que nunca envelhece
o homem inacabado
é o que nunca para de crescer
o homem inacabado
é o que morre provisório
morre oblíquo na alvorada
sem avisar ninguém
o homem inacabado
deixa tudo por fazer
e temos que juntar na pressa
esses passos de ternura
que esquece pelas ruas
de uma cidade habitada
até nas crostas mais nuas

Perugia, 30 de janeiro de 2014

 

 Dirceu Villa – São Paulo, SP

PRANTO POR DONIZETE GALVÃO
só é possível chorar
como dora maar:
com pedras que caem
rolando pelo rosto, na verdadeira miséria dos olhos.
eles dóem aflitos, se apertam e tremem, convulsos de pranto.

conhecer a dor não previne a dor:
a dor se repete dolorosa igual ou pior, é dor
sem remédio sem cura,
dura e durável dentro,
dor sem dia ou noite, meu caro donizete.

não posso mais ― digo poeticamente ―
sentir tanta dor: queremos dizer o limite
das pontas no peito, da natureza dos fatos falíveis,
e que a vida nos fosse mais do que é, se tal poder
pudessem palavras.

chorar as rochas dos meus olhos, agora
que dora retorna, dora sua amiga poeta por quem
você pediu viesse morte certa em hora justa,
após vida completa;

não pediria nada, apenas que tão prematuro
não te cortassem o fio: tarde demais, está feito. é como fazem:
sem aviso, sem verdade, no seco e no insalubre,
velhas podres, tanta morte, donizete.

você vai e nos deixa. todo dilema se foi, “teme não mais
o mormaço do sol, ou a fúria do inverno”.
cansa o combate, que nós o sabemos combate:
carne & tempo, você disse bem.

cremado, pó ao pó, sem o fetiche da cama de terra.
isto é um adeus ao abraço, à presença, ao amigo que amava:
suas palavras me vêm em sua voz,
e são ― não importa o que diz quem não tem poesia

― para sempre.

 

 Rodrigo Petronio – São Paulo

O ROSTO INACABADO
           À memória de Donizete Galvão

Em meio a um um mundo partido
Você tomou o partido das coisas
Le parti pris des choses
Você repetia Ponge

Em meio às coisas as coisas triviais:
Os ferrolhos, o capim, a bosta da vaca,
Os rumores das pedras as pedras distantes,
Ao longe e sem mais.
Amante das frestas, do inútil, das sobras.

Entre as cinzas da fala e as formas da agonia,
Você cantou as coisas simples:
O halo da maçã, o dia redondo,
O azul de um céu-navalha.
A voz do poema a fala emaranhada
Em suas infinitas vozes
Nomeava um mundo mudo – sua obra.

Você captou o prumo e o gesto.
A faca indecisa entre o horizonte e o nada.
Na água na terra imprecisa
Entre a nuvem e o minério
Entre as bordas do mundo e Borba da Mata.
Sob as coisas as coisas,
Matéria de sofrimento ainda não revelado.

E assim
Em uma câmara aberta de ecos
Mesmo com a morte a vida o poema
A superfície das pedras em água e mistério
Continua a tramar o seu rosto inacabado.

 

 Gilberto Nable – Belo Horizonte

ELEGIA PARA DONIZETE GALVÃO
A morte esvazia
todos os recantos:
gritar teu nome, agora,
seria gritar no vácuo,
o grito sem som dos mudos.
O certo é que não vejas,
nem percebas,
tudo que, por ora,
vai acontecendo.

Em uma curta estação
— o tempo humano é tão breve —
as pessoas gravitaram,
em torno do teu corpo,
um pouco do calor e da poesia.
Um pouco do teu humor triste.
Muito da tua generosidade.
Mas deixados à nossa própria sorte,
ao peso específico que nos cega,
somos a quase completa escuridão,
pobres órbitas que mal giram,
sólidas esferas de egoísmo
umas às outras se chocando.

 

 Tarso de Melo – Santo André

UMA CARTA PARA O DONI
Doni, meu caro, é bem provável que os críticos agora se ocupem de ler sua poesia. Costuma acontecer: o corpo frio costuma acender leitores. Eles dirão que sua poesia fará muita falta, que você isso, que “GALVÃO, Donizete” aquilo. Você será citado, Doni, indexado, choverão normas da ABNT em seu jardim. Um jardim seco, sabemos, mas um jardim. E é bem provável que você ache ridículo tudo isso, assim como sei que soará ridículo aos seus ouvidos rigorosos o meu ato de escrever uma carta para quem não vai nem receber nem ler estas palavras. Deixa estar. Não tenho hora melhor para ser ridículo. Sei bem que você gastou mais tempo do que devia indagando o silêncio desses que agora serão seus leitores. Seus leitores, veja só, justamente porque o silêncio agora é seu, todo seu. Vai entender. Mas não é disso que gostaria de tratar nesta nossa última carta. Quem vinha lendo seus livros sabia bem que poesia não era o problema. Sobra poesia naqueles volumes magros. Cada um dos seus livros fazia e continuará fazendo o banquete para seus leitores — os de sempre e os de hoje em diante. O que seus amigos — e é incrível o número deles — não aceitam é que você vá embora, assim, sem uma festa, sem um abraço, sem mais convívio. Convívio. Taí uma palavra que eu não lembro de ter lido nos seus poemas, mas que tinha tudo a ver com você. Convívio, com-viver, viver-com. Chego a crer que todos os seus poemas só nasceram no momento em que viver-com se mostrava problemático, difícil, crítico, como naquele poema em que você xinga uma pomba que a cidade matou, como se matasse a você. Mas eu não quero ficar lembrando, muito menos interpretando seus poemas agora. Poemas? Todo mundo aqui sabia que poema era a mais fácil das artes a que você se dedicou. Aliás, não vai ser nada difícil a vida de quem ficar procurando em seus poemas alguma indicação de que a morte nos rodeia. Moleza, Doni. Há uma sombra pesada sobre cada página que você escreveu, tão densa quanto a atenção que você dedicava a cada pessoa que a vida trazia para perto: o abraço sempre disponível, a leitura incansável, o diálogo aberto, a mania de presentear, a ponte prontamente instalada. Coisas que nem a poesia explica: o poeta do desconforto (escoiceado, mudo, inacabado) era perito em propiciar conforto aos outros, a todos, o tempo todo. Ah, Doni, como é que alguém que sempre tentou nos convencer que era cedo demais para sair da mesa, sai tão cedo assim de nossa vida? Guardo aqui o abraço que gostaria muito mesmo de ter entregue pessoalmente, seu amigo, T.

 

 Ruy Proença – São Paulo

NOTÍCIA
          (em memória de Donizete Galvão)

por que
hoje
tão cedo
fui olhar
a romãzeira
no quintal?

um sabiá
grande
laranjeira
voou
do chão
para o galho
do galho
para o telhado
da edícula

cabisbaixo
volto para a cozinha
e antes da soleira
da porta
vejo
delicada libélula
morta

formigas
a visitam

meu amigo
morreu

a romãzeira
dá frutos
o ano todo

foi
presente dele

é ele
sempre
presente

 

 Guilherme Gontijo Flores – Curitiba

DONIZETE GALVÃO (1995-2014), IN MEMORIAM

(trecho)
(…)
O Donizete, por exemplo, eu conheci primeiro em livro & foto, aquela poesia pesada, noturna (“a noite é nossa sina”), mineiramente doída (com seus bois, taperas, capins &c. “Nunca saí dessa Minas que não termina”), ou melhor, paulistomineira & doída (como negar que sua roça é provavelmente a mais urbana da poesia brasileira?), de algum modo combinava com a imagem forte que eu tinha dele nas (2 ou 3) fotos que eu conhecia. Sempre tive a impressão de que era um homem alto & robusto — o que era imaginação, invenção daquela chancela, desejo de lhe dar uma unidade coerente que nada tem de humano.

Em setembro de 2012, ele veio a Curitiba fazer uma oficina de poesia: claro que fui pra conhecer a figura, o Bernardo Brandão veio junto. Depois de um momento curioso de primeira vista, comecei a rever o homem imaginado: não era tão alto, notavelmente tímido, com uma voz hesitante & fina — fina que não cabia naquele corpo pouco forte, mais afeito à barriga civilizatória. Essa mesma voz fina sempre viria a me espantar nas outras vezes que o veria, como que nunca pertencendo ao corpo. Pra terminar, a presença de anéis coletivos, apinhados num mesmo dedo, cujo sentido nunca cheguei a perguntar, talvez por simplesmente gostar daquilo sem compreender.

Enfim, a oficina foi ótima, de Eliot ao Drummond profundo que eu sei que ele carregava consigo, independente da mineirice partilhada (eu mesmo, mineiro pelas metades, acabei por carregar esse modo & até penso que talvez esteja mesmo mais na terra do que nas leituras de Drummond), passando por Sophia de Mello Breyner Andresen. O que importa é que, depois da oficina, a gente foi conversar com o homem & depois fomos tomar uma cerveja & depois fomos jantar com o homem, de uma gentileza carinhosa & de uma abertura que vi poucas vezes no meio literário: aqui convém dizer que muitas vezes o melhor, em literatura, é ficar sem conhecer as pessoas, porque em geral o homem decepciona, está sempre aquém da obra.

O Donizete não.

Não é nem que estivesse além da obra — ele simplesmente era a contraparte da obra.

Com isso eu quero dizer que encontrei no homem um aspecto solar que (quase) não aparecia na sua poesia. Essa característica contrastiva — pessoa X obra — tirava toda a aura da obra, & isso, penso eu, talvez fosse o melhor da obra. Quem lê a sua poesia sente exatamente um estado de fim da aura, de poesia inacabada, homem inacabado (título do seu último livro), cortado entre uma origem roceira & uma vida urbana que nunca termina de se completar: um homem a caminho do nada. Mas o Donizete ria bastante, pude dar longas risadas com ele nas outras vezes que nos encontramos ao longo desse ano & meio, além de discutir essas questões solares & noturnas, de qualquer modo sublunares, que era o que nos importava.

(…)

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*Carlos Machado é jornalista, criador e editor do boletim poesia.net, do site Alguma Poesia (www.algumapoesia.com.br) e autor do livro de poemas Pássaro de Vidro (Editora Hedra, SP, 2006)

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